Justiça tenta proteger Barão Geraldo contra os políticos

Correio Popular 01/10/2004
O zoneamento caótico e os erros do poder
De todo esse caso deve ficar bem clara a lição de que uma cidade não pode mais viver às custas de mudanças específicas, sem discussão abrangente

Editorial

A interferência definitiva da Justiça na aventura das mudanças do zoneamento de Campinas, paralisando um processo que parece se arrastar por teimosia, evidencia falhas na atual Administração da cidade que não podem passar desapercebidas de quem pretende governar bem Campinas.

Ao tentar mudar legislações específicas que se cimentaram ao longo dos anos em várias regiões da cidade, o atual governo precisava ter entendido que estava mexendo com usos e costumes da população, interferindo no modo de vida de muita gente. Mais que isso, estaria perigosamente se aproximando, de modo não adequado, de áreas de risco ecológico, em áreas estritamente residenciais e em áreas altamente valorizadas exatamente pela qualidade de ocupação que a lei havia ali proporcionado.

Por todos esses motivos, não só a população local, mas também as entidades de preservação ambiental, precisariam ter sido ouvidas, inclusive conselhos que têm poder de deliberação e cujas decisões são soberanas.

O que se viu em Campinas quando a Prefeitura iniciou o processo de mudanças de zoneamento foi uma grande névoa pairando sobre o assunto: pessoas interessadas no tema, moradores e as próprias entidades que têm como objetivo preservar o meio ambiente foram à luta, cobrando do poder público maior transparência na ação.

Por outro lado, a performance da Câmara dos Vereadores em todo o processo merece críticas, pois é um emaranhado de ações que denotam pressa na tentativa de aprovação, o que não condiz com as normas de probidade com as quais uma Casa de Leis deve se conduzir. Emendas apensadas ao projeto repentinamente, votações em desacordo com determinações judiciais, projetos sub judice sendo votados e arquivados, enfim, vários atos que acabaram redundando na terceira derrota da Câmara na Justiça sobre o mesmo assunto. E, pior, uma abertura de processo criminal contra o presidente do Legislativo por desobediência a ordem judicial.

Convenha-se que a somatória de falhas, de tentativas de aprovação dos projetos, da insistência em realizar tais mudanças e do trabalho todo que tais procedimentos deram à Justiça, não coadunam com o trabalho que uma Câmara de Vereadores – formada por representantes do povo aos quais foi dado o poder de legislar – deve realizar.

Fica portanto, no ar, a certeza de que a Câmara, no caso, não cumpriu com uma de suas mais primordiais funções: zelar por uma irrepreensível conduta processual de modo a não deixar brechas para que seus atos sejam impugnados pelo Poder Judiciário.

De todo esse caso deve ficar bem clara a lição de que uma cidade não pode mais viver às custas de interesses específicos de quem quer que sejam. Uma cidade tem que ser pensada como um grande núcleo interrelacionado onde as mudanças que ocorrem numa região podem influenciar sobremaneira outras regiões. O planejamento, então, se torna essencial. E nessas tentativas de mudanças a que a cidade toda assistiu, impetradas pelo Poder Executivo e pelo Poder Legislativo, a ausência de um planejamento que contemplasse a cidade de maneira ampla ficou evidente. Além disso, agir ao arrepio de ordens judiciais acabou provocando a ação mais firme do Poder Judiciário.

A autoridade legitimamente constituída não pode mais realizar mudanças na vida dos cidadãos sem que estejam plenamente justificadas e sejam totalmente necessárias. E mais: sem que se pense no conjunto da sociedade.

 

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