Coitado do ganso


TXT Estado  Terça-feira, 9 outubro de 2007   edições anteriores

Xico Graziano*


                  

                   O Dia dos Animais se comemorou em 4 de outubro. A data,  mundial, coincide com a reverência a São Francisco de Assis. Católicos e  ambientalistas comungam idéias. Na pauta da modernidade, cresce o endosso  ao bem-estar animal, a nova disciplina da agropecuária.

                   O frade italiano, que viveu entre 1181 e 1226, amava os animais como pessoas, tratando a todos como "irmãos". O apreço aos  elementos da natureza adorna sua imagem, um pássaro no ombro, uma ovelha  aos pés. Santo humilde, protetor dos animais.

                   Na história da agricultura os animais sempre penaram. No  começo, foram caçados impiedosamente. Mais tarde, domesticados, serviram a  duras tarefas. Para engordar rápido passaram a ser criados presos. Quanto  mais a humanidade se entupia de gente, mais se confinava a bicharada em 
apertados espaços. A tecnologia aumentava o rendimento de carne, decaía o  conforto animal.

                   Ninguém ligava. Somente nas últimas décadas, na Europa  principalmente, surgiram contestações ao método confinado de criação dos  animais. Começou pela suinocultura. O porco foi o primeiro animal, com  fins alimentares, a ser domesticado pelo homem.

                   Veterinários notaram que o aperto nas baias provocava  canibalismo. Orelhas e rabos não resistiam ao stress do rebanho, que  elevou à incidência de doenças degenerativas. Abatida, a carne perdeu  durabilidade na geladeira. As fêmeas gestantes, sem espaço nas gaiolas,  sofrem traumatismo. Enfim, sofrimento a rodo chegou aos animais em nome da  produtividade.

                   Os consumidores, liderados por grupos ambientalistas, de  roteção aos animais, reagiram. Exigiram, sob pena de boicote ao consumo,  mudanças na produção. A Inglaterra liderou tal movimento na suinocultura. 
Estimulou a criação dos animais em grupos, soltos no campo. Surgia,  definitivamente, o conceito do bem-estar animal. O marketing fez o resto,  trabalhando a imagem dos porquinhos saudáveis e "felizes", saltitantes na  natureza. O mercado adorou.

                   Em 1991, os países europeus estabeleceram normas de  bem-estar na produção de vitelos. A avicultura começou também a ajustar  sua agenda, cedendo aos apelos ecológicos. O movimento contra o sofrimento  dos animais não parou de crescer. Na reforma da Política Comum Européia  (PAC), em 2003, introduziu-se a norma da "condicionalidade". Significa  punir o agricultor que, a partir de janeiro de 2007, não adotar os novos  preceitos. Perderá parte dos subsídios agrícolas. A moleza acabou.

                   Nos EUA, o tema esquentou por causa do ganso. Ou melhor,  do patê de seu fígado. Vários Estados, Califórnia à frente, sancionaram  leis proibindo a alimentação forçada de aves. O método, utilizado para  produzir o "pâté de foie gras", é considerado cruel há séculos, desde  quando se pregavam os pés dos gansos numa tábua, entupindo seu papo, 
através de um funil, sem que o coitado pudesse sair do lugar.

                   Ainda hoje as aves são obrigadas a engolir uma mistura  de ração gorda em quantidade muito superior àquela que ingeririam  voluntariamente. A papa nojenta, introduzida pelo esôfago num funil,  degenera o fígado, dando-lhe amargor. Em certos casos se coloca um anel  elástico apertado no pescoço do bicho para ele não regurgitar. Ao fim de  quatro semanas o fígado desses animais fica 12 vezes maior que seu tamanho  natural. Um horror.

                   A técnica cruel já foi proibida em 15 países, entre eles  Alemanha, Itália, Israel e Grã-Bretanha. No Brasil, o assunto é quase  desconhecido. Por aqui, as novas tendências da produção animal ainda  capengam. Parece, infelizmente, que a miséria humana abafa a crueldade  erigida para satisfazer a fome.

                   Há progressos. No sul do País já se utiliza, desde 1987,  o Sistema Intensivo de Suínos Criados ao Ar Livre (Siscal), como é  conhecido entre os especialistas em etologia, a ciência do comportamento  animal. Nos demais ramos da zootecnia, técnicas recentes visam a  "ambientalizar" o criatório. Aos poucos, o mundo tupiniquim se move.

                   Animais criados em verdadeiras fábricas de carne,  recintos sofridos que confundem animais com máquinas, acabam estimulando o  vegetarianismo. Claro. O assunto é pesadelo para os pecuaristas. Sem  comprovarem o bem-estar dos animais, podem cair o consumo e a exportação. 
Carne sofrida perde saída.

                   Os vegetarianos, porém, não se curvam facilmente.  Denunciam que a agenda do bem-estar animal não rompe o pior, qual seja, a  condição de mercadoria dos bichos. A criação dos animais serve, apenas,  para satisfazer interesses econômicos dos humanos. Melhor mesmo, defendem,  é comer somente vegetais, que não andam, nem gritam, nem pensam. A  polêmica, difícil, envolve dogmas elitistas.

                   Para o povo mesmo, no Brasil rural, a diferença surgiu  recentemente com Monty Roberts, o famoso "encantador de cavalos". O  domador norte-americano amansa eqüinos bravios utilizando uma técnica  revolucionária, baseada na comunicação da vida selvagem. Na doma, homem e  cavalo estabelecem uma relação de confiança e respeito mútuo. Sem nenhuma 
violência. Doma gentil!

                   Peões de boiadeiro, País afora, descobriram o respeito  animal vendo o trabalho do encantador de cavalos na televisão. Ninguém  acreditava que seria possível domar um burro bravo, ou um potro inteiro,  sem maltratá-lo com esporas, bridão, gritos e pancadaria. Bom exemplo.

                   Humildade é o traço forte do caráter de São Francisco de  Assis. No fundo, foi a prepotência humana que gerou as sofridas fábricas  de carne. O respeito aos animais é o melhor traço da nova ética da  agropecuária.

                  
* Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente  do Estado de São Paulo. E-mail: xico@xicograziano.com.br  Site:  www.xicograziano.com.br
 

 

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