É preciso mudar!

Consciência: documentário comprova que bichos sentem medo, angústia, tristeza e até saudade, e defende uma postura ética com animais domésticos, silvestres, de produção e entretenimento

 Sammya Araújo
sammya@rac.com.br

Experimentar sentimentos e sensações de medo, angústia, tristeza, alegria, frustração e até saudade, tendo consciência sobre o que lhes acontece e do que os rodeia. Essas não são prerrogativas exclusivas dos seres humanos. Em grau menos complexo, mas de forma igualmente fundamental para a existência, os animais têm a mesma capacidade, já garantia o naturalista Charles Darwin, autor da teoria da evolução das espécies e precursor da biologia moderna. Essa percepção é hoje chamada de senciência, palavra inexistente nos em português, mas que vem se tornando popular quando se fala no tratamento ético e no bem-estar dos animais.

Romper preconceitos e mitos e expor tanto os maus quanto os bons exemplos nessa área é o objetivo de um vídeo produzido pela World Society for the Protection of Animals (WSPA) (ou Sociedade Mundial de Proteção Animal), que tem 900 afiliadas em 150 países. O documentário, que traz depoimentos de especialistas do Brasil, Colômbia, Canadá, da Noruega e Escócia, teve a exibição pública lançada em Campinas no mês passado, por intermédio da Organização Não-Governamental (ONG) Instituto de Valorização da Vida Animal (IVVA).

A produção contém cenas fortes e dolorosas. Mas pode ser vista sem grandes dramas até pelos mais sensíveis, pois o
principal mote é mostrar que falar em no reino animal não é iniciativa de vegetarianos extremistas, tampouco fruto de deduções de donos solitários que tentam humanizar o companheiro de estimação. Há forte embasamento científico em defesa
da senciência, sustentam os pela WSPA.

“As porções anatômicas do sistema nervoso central que estão relacionadas a sentimentos básicos aparecem em todos os animais vertebrados. Ou seja, mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes”, assegura no vídeo a veterinária Carla Molento, doutora em Zootecnia pela McGill University, Canadá, e coordenadora do Laboratório de Bem-Estar Animal da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Eles sofrem, alegram-se, têm memória”, continua Carla. A veterinária cita um experimento científico realizado com peixes beta, que demonstrou a capacidade de aprendizagem: foram utilizados três desses animais, que têm forte instinto territorialista. Dois foram colocados no mesmo aquário e o terceiro ficou sozinho em um tanque ao lado. A dupla que dividiu espaço, como o esperado, lutou, e houve um vencido e um vencedor. A seguir, pôs-se o terceiro peixe com os demais, um de cada vez. O resultado foi surpreendente.

É possível: fazendas que adotam métodos de criação adequados colhem benefícios econômicos

“Ele se comportou de forma diferente. Com o que perdeu, tentou mostrar dominância, foi agressivo. Com o que ganhou, deu sinais de submissão”, relata a veterinária. “Um animal que observa e aprende tem um grau de complexidade do sistema nervoso central compatível com senciência.”

“As vacas leiteiras demonstram ter preferência de companhia (de outras no mesmo rebanho), ou seja, há um sentimento de afinidade, amizade”, comenta, em outro exemplo, Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, coordenador do Laboratório de Etologia Aplicada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Como pesquisador do comportamento social e individual dos animais, ele atesta: “Todos os seres vivos desejam sentir-se bem”.

O vídeo demonstra, no entanto, que a realidade é quase sempre oposta. Gatos, cachorros, pássaros e outras espécies silvestres têm enorme cota de sofrimento a carregar, com o comércio clandestino, as compras por impulso, abandono, maus-tratos, encarceramento, manipulação genética e reprodução indiscriminada.

Há ainda os animais que rotineiramente são tratados como objetos ou máquinas pelos seres humanos: os de produção, trabalho e entretenimento. Em comum, todos têm o fato de serem ignoradas suas necessidades básicas de sobrevivência e negado a eles o direito de manifestar seu comportamento natural. Históricos de tortura também não são raridade nesses casos.

“É muito importante que reconheçamos que os animais de produção podem sofrer psicologicamente e ser levados à depressão”, afirma à WSPA a pesquisadora Françoise Wemelsfelder, da Faculdade de Agricultura da Escócia. São ainda lembrados no documentário as montarias de rodeio expostas a todo tipo de estresse, bem como os animais selvagens domesticados com violência e confinados em jaulas exíguas nos circos.

Saúde humana é afetada

Se ainda há dúvidas sobre a validade da senciência animal, os especialistas avisam que isso afeta diretamente o elo mais forte da cadeia alimentar. “A influência (da forma como lidamos com os animais) sobre o meio ambiente e a saúde humana é real. Eles precisam ser tratados decentemente em nosso próprio benefício”, conclama a veterinária sanitarista Vânia Plaza Nunes, professora de Bem-Estar Animal do curso de Veterinária da Faculdade de Jaguariúna (FAJ), uma das poucas do Brasil a oferecer a cátedra.

Em entrevista a Metrópole, Vânia lembra que a doença da vaca louca, que gerou pânico e caos na saúde pública de vários países, foi originada pelas práticas incorretas na criação, com o fornecimento de proteína animal aos bovinos. O mesmo ocorreu na gripe asiática, potencializada por manipulações genéticas desastrosas.

Do ponto de vista financeiro para os criadores, o cuidado também é vantajoso. “Animais bem tratados são mais fáceis de manejar, exigem menos força dos trabalhadores e geram menor risco de acidentes no trabalho”, defende no vídeo Mateus José Paranhos da Costa, professor de Zootecnia e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O documentário prova que isso está ao alcance. Um exemplo é o método adotado por uma fazenda do interior paulista: bicos de mamadeira adaptados em baldes com leite, para amamentar os bezerros separados das mães imediatamente após o nascimento, o que satisfaz sua necessidade de sugar (a mesma dos humanos). E enquanto mamam, tratadoras escovam seus dorsos, simulando as lambidas da vaca. O tratamento aumentou a produção e reduziu as doenças.

Até os apreciadores do bom churrasco lucram com o tratamento ético aos animais de corte. “Há evidências crescentes de que o estresse dos animais afeta a qualidade da carne”, garante a escocesa Françoise Wemelsfelder. Mas a pesquisadora completa: “O que importa mesmo é que temos responsabilidade moral de dar bem-estar aos animais”.

As cinco liberdades

Indicadores de bem-estar animal elaborados em 1993 por um comitê internacional de veterinários, usado como referência em todo o mundo:

Livre de fome e de sede.
Livre de desconforto.
Livre de dor, medo e doenças.
Livre de medo e estresse.
Livre para expressar seu comportamento natural.

Saiba: banho semanal em cães, animais silvestres em casa e adestramento para circo são formas de maus-tratos

ANIMAIS DOMÉSTICOS


Banho semanal em cães só se houver indicação médica, avisa o veterinário João Telhado Pereira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Isso descaracteriza o animal em termos de cheiro, que é a sua identidade”, justifica.

A seleção artificial para obter-se padrão racial em cães e gatos traz problemas médicos, assegura Carla Molento, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A veterinária cita os focinhos curtos dos buldogues, que provocam alta incidência de males respiratórios, sharpeis e gatos persas com dificuldades oculares e hérnias de disco em bassets, por suas pernas curtas.

Cirurgias estéticas para modificar a aparência dos cachorros, cortando-lhes rabos e orelhas são consideradas mutilações e proibidas em todo o País por resolução do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), diz João Telhado Pereira. “A cauda tem função de equilíbrio e comunicação visual do cão”, afirma.

Cães e gatos entediados sofrem de estresse mental que pode gerar doenças físicas. “Um cachorro deixado sozinho não é feliz”, atesta Pereira. O veterinário sugere brincadeiras, como esconder a comida dentro de caixas e garrafas plásticas com buracos para que o cão possa procurá-la. Para os gatos, arranhadores e bolinhas fornecem distração e estímulo psicológico.

A falta de castração pode causar sofrimento: cães e gatos no cio e impedidos de acasalar ficam estressados porque continuam a sentir os odores dos parceiros do sexo oposto, podem ficar apáticos e deixar de comer. Vânia Plaza Nunes, veterinária sanitarista professora da Faculdade de Jaguariúna (FAJ), diz que é mito esperar o primeiro cio da cadela. Quanto mais cedo a cirurgia, menor o risco de tumores malignos: antes do primeiro cio, a incidência é de 0,5%. Entre o segundo e o terceiro, sobe para 17%.

ANIMAIS DE PRODUÇÃO

Uma galinha poedeira passa sua vida em gaiolas com até sete outras aves, num espaço tão apertado que nem sozinha poderia abrir completamente suas asas. Elas são alimentadas em ritmo intensivo e põem até três vezes mais ovos.

Frangos de granjas vivem em galpões com densidade populacional tão alta que, quando adultos, quase não se vê o chão. Crescem duas vezes mais rápido graças a uma dieta rica em proteínas e, quando chegam à idade do abate, alguns mal andam. São transportados uns sobre os outros e muitos morrem.

Porcas são criadas em baias estreitas em que mal podem se mexer e deitar. Os leitões são separados das mães em duas a três semanas para crescerem mais rápido e criados sobre pisos de metal ou concreto, o que os impede de fuçar. Estressados, desenvolvem comportamentos anormais, como roer as barras das baias e morder as caudas uns dos outros.

Vacas leiteiras sofrem com freqüência de mastite, inflamação extremamente dolorosa nas tetas, muitas vezes pelo manejo inadequado e que é rotineiramente ignorada pelos criadores. Cascos, ossos e articulações dos bovinos são sobrecarregados pela vida em baias com pisos de concreto.

ANIMAIS SILVESTRES

Quando um pássaro engaiolado canta não é de alegria, garante Roberto Cabral Borges, coordenador de Operações e Fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “O pássaro canta para demarcar território”, diz o biólogo, taxativo ao afirmar que uma ave não pode ser feliz impedida de voar. Isso vale inclusive para os papagaios criados fora de gaiolas, mas que têm as asas cortadas.

O comércio de animais silvestres gera dor e morte na captura e no transporte. Mesmo os pássaros de criadouros têm o seu bem-estar negado, diz Borges. “Os criadores têm transformado os pássaros em fábricas de ovos”. Filhotes nascem nas incubadoras, fêmeas são impedidas de chocar.

ANIMAIS DE TRABALHO

São muitíssimo negligenciados em suas necessidades e explorados à exaustão. Cavalos, por exemplo, precisam de espaço para correr, pasto verde com grama baixa, local sombreado para descanso e convivência com outros, para interação e para que cocem suas costas, elenca Vânia Plaza Nunes, da (FAJ).

ANIMAIS DE ENTRETENIMENTO

Há leões de circo com a coluna atrofiada por ser mantidos em jaulas exíguas; chimpanzés com os dentes arrancados para não morder e elefantes acorrentados pelos pés sem poder se movimentar a não ser durante o “espetáculo”.

Carla Molento duvida que tigres possam ser ensinados a saltar arcos de fogo sem maus-tratos. Para ela, a única forma de obrigar o animal a isso é com reforço punitivo (o vídeo mostra uma treinadora espancando um destes felinos).

Animais de rodeios vivem em estado permanente de alerta provocado pelo som alto, gritos, chutes e confinamento, o que gera altíssimo nível de estresse. Há imagens de um cavalo à espera de entrar na arena que bate o queixo e range os dentes, sinais de dano neurológico.

Os mesmos animais pulam e saltam não porque se incomodam com a montaria, mas para tentar se livrar do polêmico sedém, a tira de couro que os aperta e causa forte dor na sensível região da virilha, afirma Carla Molento. Bichos laçados e usados em provas de captura apresentam fraturas e hematomas após as “apresentações”, relata a veterinária.

Fonte: Animais Seres Sencientes, documentário em vídeo da WSPA (www.wspabrasil.org).

Objetivo é conscientizar

A veterinária Ingrid Eder, gerente de Campanhas da WSPA, afirma que o principal objetivo do documentário é provocar mudanças práticas de comportamento, que levem à criação de leis mais modernas de tratamento ético aos animais no Brasil. Nesse aspecto, teria forte repercussão, defende ela, a pressão de quem compra produtos de origem animal.

“O consumidor não tem noção do seu poder. As pessoas podem e devem escrever para as empresas que fornecem carne de boi, de frango, ovos e leite, cobrando garantias de bem-estar dos animais de produção”, exemplifica. O vídeo, de fato, mostra que em diversos países essa demanda popular responde hoje pela proibição de práticas abusivas, como as baterias de gaiolas para galinhas poedeiras, que serão banidas em toda a União Européia a partir de 2012.

Para disseminar todos esses conceitos, o vídeo da WSPA não é protegido contra reproduções. Pelo contrário. Miriane de Almeida Fernandes, presidente do Instituto de Valorização da Vida Animal (IVVA), que faz a divulgação em Campinas, afirma que a entidade fornecerá cópias aos interessados, mediante entrega de um DVD para gravação. A intenção também é iniciar em breve exibições públicas semanais, em faculdades, escolas e outros locais de concentração de público. O contato é pelo e-mail presidência@ivva-campinas.org.br.

A prova sonora do sentimento

Quem cresceu em áreas rurais já deve ter ouvido dizer que o piado de um pintinho pode revelar se ele “vai para frente”, ou que o mugido da vaca alerta a manada para um predador próximo. Para provar que não se trata de crendice, pesquisadores de Campinas criaram um software que interpreta os espectros de sons emitidos pelos animais de produção – suínos, aves e bovinos –, “traduzindo- os” para que sirvam para auferir, objetivamente, o seu bem-estar. É a prova vocal da senciência.

O programa, fruto de um estudo inédito sobre esse tema, estudado apenas por mais dois grupos nas universidades de Lowven (Bélgica) e de Tskuba (Japão), foi desenvolvido por uma equipe da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp orientada pela professora Irenilza Naas, especialista em zootecnia de precisão.

“Quem tem ouvido treinado reconhece, mas apenas achar alguma coisa não basta. É preciso medir e ter noção da correspondência real daquele som, que é a forma que o animal tem de se comunicar e pedir ajuda”, afirma. E é isso que faz o software, a partir de um banco de ruídos produzidos pelos animais em determinadas situações, como o de um leitão ao ser separado da mãe na amamentação e o de uma vaca com dor pela demora em ser ordenhada.

Foram identificados sons associados a medo, dor, frustração e fome, com os espectros correspondentes. “São padrões de comparação vocal que permitem gerar um perfil daquele animal, obtendo-se uma curva do estresse ao qual ele foi submetido. No final, o software vai fornecer um relatório completo de análise”, diz Irenilza.

E para que isso serve? Além de viabilizar um manejo mais ético da criação, o programa será um diferencial para comercializar a carne e os subprodutos, assegura. A pesquisadora cita uma certificação, a Global Gap (que audita exportações para a União Européia), que tem entre seus critérios o baixo nível de estresse animal. “É provado que o medo altera as características da carne. Será uma ferramenta para certificar a qualidade do produto brasileiro nesse aspecto”, diz.

Irenilza também lembra a responsabilidade dos seres humanos nesse processo. “Algumas pessoas criticam ‘ah, o animal vai virar alimento de qualquer jeito’, mas ele não precisa sofrer”, afirma. O software está em vias de patente e a estimativa é que chegue dentro de um ano ao mercado, em parceria com a iniciativa privada, por meio da Agência de Inovação (Inova) da Unicamp.

Circo não é lugar para animais

A tortura institucionalizada em circos que utilizam animais é o alvo de uma campanha específica de ONGs de proteção animal em todo o mundo. Representantes de diversas dessas instituições brasileiras – entre elas a WSPA e várias de suas filiadas – estiveram em Brasília no último dia 4 para entregar aos ministérios do Meio Ambiente e da Cultura e à Câmara dos Deputados o vídeo Stop Circus Suffering ( Parem o sofrimento nos circos), produzido pela Animal Defenders International (ADI), que mostra cruamente os maus-tratos que alimentam essa indústria de “espetáculos”. No País, o vídeo é uma das armas dos protetores para lutar pela aprovação do projeto de lei 7291/06 com substitutivo, que proíbe a utilização de animais nos circos em todo o território nacional. As imagens são recentes (gravadas inclusive em circos no Brasil), fortes e visam, principalmente, desmentir a versão propagada por alguns proprietários de circo de que esse tipo de violência não ocorre mais e que as cenas divulgadas em alguns meios públicos são antigas. O projeto de lei já foi aprovado pelo Senado e está em trâmite na Câmara dos Deputados, de cuja pauta foi retirado em junho para passar por audiência pública, adiada por quatro vezes desde então, a pedido do presidente da Comissão de Educação e Cultura (CEC), o deputado João Matos (PMDB/SC). Por conta disso, as entidades divulgam, em seus sites, a lista dos e-mails dos titulares da CEC e pedem aos cidadãos que apóiam a causa para pressioná-los a dar agilidade ao assunto. A relação pode ser encontrada na página de abertura do site da WSPA, no www.wspabrasil.org.

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