O córtex pré-frontal
- dezembro 2008 -

 

TRÊS PESQUISAS publicadas na semana passada:

1) Excesso de TV e internet na infância aumenta o risco de vida sexual precoce, abuso do álcool, fumo e drogas, além da obesidade (Universidade Yale);
2) Crianças que vivem longe de áreas verdes tendem a engordar mais do que as que moram próximas de parques ou praças (Escola de Saúde Pública da Universidade de Washington);
3) Em comparação com meninos e meninas ricas, crianças pobres demonstraram, em testes com neurocientistas, menor atividade no córtex pré-frontal -área do cérebro relevante para a criatividade e solução de problemas, o que se traduz em limitação, muitas vezes para sempre, do aprendizado (Instituto de Neurociência Helen Wills, da Universidade da Califórnia).
As três pesquisas sugerem, entre outras coisas, o dano físico e psicológico provocado pela escassez do prosaico ato de brincar, da qual a obesidade é só o sintoma mais visível.

Ao falar sobre o cérebro das crianças de famílias de baixa renda, um dos autores do estudo (Thomas Boyce) ressalvou que o problema não era necessariamente a pobreza, mas o precário estímulo lúdico no ambiente em que vivem. Além da falta de livros, poucos visitam museus e teatros. Para completar, faltariam brincadeiras desde o berço.
As pessoas, em geral, imaginam o brincar como um passatempo inútil. Mas é um dos caminhos para o prazer da descoberta, capaz de estabelecer conexões cerebrais usadas pelo resto da vida. Mesmo os pais ricos e de classe média desconsideram essas descobertas científicas. Basta ver a ansiedade para que seus filhos se alfabetizem o mais rapidamente possível, aprendam logo uma segunda língua e comecem a se preparar para o vestibular.
Assim como excesso de comida não significa saúde, mas doença, excesso de informação não significa capacidade de lidar criativamente com o conhecimento. Ficar muitas horas no computador é a versão intelectual da obesidade.

Podemos medir a qualidade de uma cidade apenas julgando o espaço dedicado ao direito à brincadeira. Certamente aqui está uma das razões associadas à violência.
Na semana passada ocorreu, em São Paulo, um encontro sobre o futuro das metrópoles, organizado pela London School of Economics, em que, entre outros assuntos, se discutiu a segurança. Foi exibido o caso de Medellín, na Colômbia, que chegou a ser o lugar mais violento do planeta, com 368 mortes por 100 mil habitantes. Só para comparar, note que, neste ano, o índice de assassinatos na cidade de São Paulo gira em torno de 13 por 100 mil habitantes e não nos sentimos seguros.
Além, claro, de ações policiais e de infra-estrutura, Medellín criou praças, parques e ciclovias. Abriram-se as escolas nos finais de semana e se montou uma rede de monumentais bibliotecas que mais parecem parques de diversão. Tudo isso se converteu no prazer da convivência e da descoberta que, em essência, significa brincar.
O índice de assassinatos em Medellín baixou, neste ano, para 25 por 100 mil.

Não é necessário ir tão longe. Neste final de semana, o rapper Rappin'Hood se apresenta na inauguração da praça da Paz, no bairro Elisa Maria, na zona norte de São Paulo, conhecido pela rotina das chacinas. Desde o ano passado, como em Medellín, se implantaram, além de policiamento comunitário e programas assistenciais, projetos culturais e esportivos. Construiu-se uma escola, que fica aberta nos finais de semana.
Resultado divulgado na sexta-feira passada, durante seminário internacional sobre policiamento: em um ano, queda de 68% dos homicídios.
Esse tipo de resultado é o que me faz prestar atenção em experiências como a de BH, onde se colocam universitários em praças e parques para interagir com estudantes de escolas públicas; em São Paulo, desenha-se um projeto para que todos os clubes municipais se convertam em extensão da sala de aula; a cidade inteira de Apucarana, no Paraná, se converteu numa escola.

Como vivemos na era do conhecimento, as cidades contemporâneas têm de ser conduzidas mais pelo pelo olhar dos educadores do que dos arquitetos, engenheiros e urbanistas -e, aliás, desde o berço. Nada mais importante do que a crescente convicção, em todos os níveis de governo, visível nas últimas eleições municipais, de que um projeto de nação civilizada passa pela pré-escola, a começar da creche. As descobertas dos neurocientistas da Universidade da Califórnia, com as revelações dos movimentos cerebrais, encerram definitivamente o debate sobre a importância dessa ação.

PS-Coloquei em meu site ( www.dimenstein.com.br ) o detalhamento das três pesquisas citadas nesta coluna. Qualquer indivíduo com um mínimo de responsabilidade pública nunca deveria esquecer dos efeitos neurológicos sobre a falta de estímulos na infância. É no córtex pré-frontal que se perpetua a desigualdade social.

Gilberto Dimenstein - Folha - 01/12/08 - C9


Em 10 de julho de 2001 foi sancionada a lei 10.257 - Estatuto da Cidade, fechando um ciclo de mais de dez anos de discussão, trazendo muitas inovações capazes de apontar um futuro melhor para nossas cidades, estabelecendo um conjunto de princípios - no qual está expressa uma concepção de cidade e de planejamento e gestão urbanos - e uma série de instrumentos que, como a própria denominação define, são os meios para atingir as finalidades desejadas, ou seja a construção de cidades sustentáveis e democráticas.

Trata-se então da regulamentação do instrumental urbanístico para garantir o uso social da cidade e da propriedade urbana. Este instrumental agora disponível às municipalidades para a construção de cidades mais justas, igualitárias, democráticas e cidadãs, fortalece a necessidade de um planejamento sistemático e integrado, construído a partir de um modelo mais participativo de gestão urbana.

Interessante ler a seção XII
 


Vista aérea da região oeste de Campinas (final da Av. das Amoreiras)
Não há árvores nas ruas nem nos parques. As autoridades da prefeitura, no lugar de
aplicarem nesta região, querem desmatar e lotear em Barão Geraldo
 


Vista aérea de Barão Geraldo. Precisamos conservar esta natureza e convencer a prefeitura
de que, no lugar de lutar por loteamentos aqui, deveria aplicar em árvores e lazer nas outras
regiões para diminuir a diferenciação social e suas consequências.

Barão em Foco

Leia também:

Casa do Cidadão Baronense - a lei devaneio dos baronenses inocentes
 

 

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