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A
revolução republicana
CENTO E quinze anos depois da
proclamação da República, os parlamentares brasileiros ainda se tratam por nobres colegas.
- como se o Império ainda existisse, com o nome de República. Não é uma questão de cultura parlamentar nem apenas dos parlamentares.
No Brasil do século 21, a elite se sente tão distante do povo quanto no século
19. A elite brasileira não é cidadã. A desigualdade entre os ricos e os pobres, seja na renda, na educação, na habitação, no transporte, no lazer, na comida ou nos costumes, é tão grande que eles não sentam à mesma mesa, não conversam os mesmos assuntos, não sentem a cumplicidade cidadã de pertencerem a um mesmo povo.
Os parlamentares não se chamam de cidadão deputado, cidadã senadora, porque o Brasil não completou nem sua República nem a abolição da escravatura. Depois da Independência, o Brasil continuou por 70 anos um império escravocrata; em apenas 18 meses, aboliu a escravatura e proclamou a República, e tudo continuou muito parecido. Quase 200 anos após a Independência, os parlamentares continuam nobres,
o desemprego substituiu o trabalho forçado, os escravos foram transformados em pobres famintos e a educação continuou para poucos.
O regime ficou republicano, mas o Brasil continuou dividido entre uma elite nobre e uma massa plebéia. Da mesma forma que foi abolindo a escravidão, pouco a pouco, a
República foi ampliando o direito de voto, permitindo a liberdade de expressão e de organização partidária, mas concentrou a terra em poucas mãos e a educação em poucas cabeças. O legado do governo Lula será completara República e a abolição.
Para isso, é preciso não repetir 1888 e 1889: adiar aquilo que todos esperam
- uma República completa, sem exclusão, na qual todos sejam igualmente cidadãos. Nós não fomos eleitos apenas para administrar bem, mas para,
administrando bem, fazer a revolução republicana que o Brasil espera há mais de um século.
A República não foi completada porque os republicanos não se ligaram ao povo. Como «neonobres», perderam a capacidade de se indignarem diante da realidade da pobreza ao redor, gostaram dos privilégios dos aristocratas, acostumaram-se com as manhas do poder e as exigências da burocracia. Esse é um risco que nós do governo Lula não
podemos correr. desligar-se do povo, perder a capacidade de indignação,
viciar-se nas lantejoulas do poder e cair nas malhas da burocracia,
acostumarmo-nos com a mesma incompleta República e esquecermos que nossa tarefa é completá-la.
A principal forma de evitar o risco do acomodamento é caminhar sobre as dificuldades do presente sem esquecer o legado que nosso governo deve deixar às futuras gerações. Administrar as dificuldades do presente sem perder os compromissos com os sonhos do futuro. Ter um pé na aritmética e outro na utopia. Lula não foi eleito para implantar ou mudar a estrutura central da economia, nem para construir a igualdade na renda ou no consumo, mas para fazer com que todos sejam iguais na cidadania, completando a República e a abolição. Este será o legado de Lula para o futuro do Brasil.
Para completar a abolição será preciso fazer a reforma agrária, intensa, total, radical que o Brasil espera, dentro das características tecnológicas do século 21 e sem desorganizar a produção. Será preciso também criar empregos como forma de encerrar a escravidão e interromper a secular tragédia brasileira de transformar escravos acorrentados e alimentados em desempregados livres e famintos.
Para completar a República é preciso garantir uma educação igualitária a todos os cidadãos, o que só é possível por meio de uma escola pública, gratuita e com qualidade para todos. Não é republicana a sociedade que investe
praticamente 80 vezes mais na educação privada dos filhos das classes médias -R$ 240 mil- do que na educação pública dos filhos dos pobres
R$ 3.200. Os primeiros gastam R$ 1.000 por mês e ficam até vinte anos recebendo
investimentos educacionais. Os outros recebem R$ 800 por ano e ficam em média quatro anos na escola. Isso não é apenas desigualdade, é diferença, e com essa diferença o país não é
uma República.
O legado de Lula é completara República e a abolição. O seu papel é liderar o Brasil para tomarmos as medidas necessárias à mudança da realidade nos quatro anos até 2006, criando uma dinâmica em que a revolução republicana continuará nos anos seguintes. Até que, antes do final do governo, o Brasil esteja alfabetizado, todas as crianças estejam
freqüentando escolas com qualidade crescente e, antes do segundo centenário da Independência, todos os brasileiros tenham uma educação equivalente até pelo menos o final do ensino médio. Isso é possível Países mais pobres e com mais dificuldades já
o fizeram. Nós temos os recursos e sabemos como fazer. Ë possível se houver empenho e determinação do governo e apoio da sociedade, especialmente dos parlamentares, na hora de votarem os próximos orçamentos. Este é o maior empecilho:
convencer os nobres sobreviventes de 1889 de que chegou a hora de investir decentemente os recursos nacionais, para fazer a revolução republicana, que só a educação pública, gratuita e de qualidade para todos é capaz de realizar.
Mas não bastam o governo e os parlamentares. Você, o que está fazendo para completarmos a República e a abolição?
Cristovam Buarque, 59, doutor em economia, é ministro da Educação. Foi reitor da UnB (1985- 89) e governador do Distrito
FederaI (1995-93). - Folha de São Paulo - 09/03/03 - pg A3
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