Devir(*)-Brasil
 

Houve uma reviravolta: a "brasilianização" do mundo passou a significar, do ponto de vista dos países centrais, um retrocesso generalizado

 

A RELAÇÃO entre o Brasil e o mundo é uma velha história. Ela diz respeito à própria constituição da economia-mundo pela colonização européia do novo mundo. Contudo, há uma dimensão mundial do Brasil moderno que concerne a um de seus mitos fundadores: seu ser o pais do futuro.

Paradoxalmente, nas últimas duas décadas, houve uma surpreendente reviravolta: a "brasilianização" do mundo passou a significar, do ponto de vista dos países centrais, um retrocesso generalizado. Do ponto de vista do Brasil, o futuro passou a ser o próprio Brasil, ou seja, a reiteração globalizada dos fenômenos de desigualdade econômica, fragmentação social, segregação espacial e violência que sempre marcaram a modernização brasileira

Ora, o duplo pesadelo da brasilianização do mundo só se sustenta pela separação rígida e hierárquica dos pontos de vista. Na realidade, a globalização se caracteriza pela hibridização de centro e periferia, de "progresso" e "atraso", de "inclusão" e "exclusão". O que está no cerne da nova clivagem é a relação com o "outro".

A globalização é atravessada por uma alternativa radical: ela diz respeito a suas dimensões temporais.
De um lado, ela se apresenta como novo despotismo de um mundo reduzido a um único e inevitável futuro. Futuro que pode coincidir com a catástrofe anunciada: a brasilianização.

Seu tempo é unívoco e linear: o "progresso", que modula uma série infinita de fragmentos sociais e espaciais nas representações abstratas do mercado. Aqui, a relação com o outro, humano (cultura) ou não-humano (natureza), é de dominação: pela destruição ou pela homogeneização.

Por outro lado, a globalização abre-se à multiplicidade dos mundos possíveis. Sua temporalidade é aquela aberta do devir. Aqui, a flexibilidade social e econômica é manifestação de uma plasticidade cuja dinâmica se alimenta da hibridização incessante para dentro e para fora, além do dentro e do fora. A relação como outro é antropófaga, bem nos termos da proposta revolucionária de Oswald de Andrade e de sua renovação pela antropologia de Viveiros de Castro: absorver o outro e, nesse processo, alterar-se, devir.

Sabemos que o Brasil constitui um enigma para os estudos "mainstream", mas também para os estudos pós-coloniais e os da "colonialidade" do poder Isso porque o Brasil é, desde logo, pós-colonial, metrópole na colônia. Um poder monstruoso que, desde o início da colonização, se articula por dentro dos fluxos da hibridização, ao passo que a própria hibridização constituiu o terreno privilegiado de enfrentamento e constituição.

Paradoxalmente, portanto, o Brasil se constituiu originariamente numa das maiores experiências coloniais e escravagistas sem, com isso, se encaixar no que os estudos pós-coloniais definem como o paradigma da segregação. O "caldeamento" brasileiro se apresenta como uma potência monstruosa de diferenciação e constituição da liberdade. Mas isso não dissipa o pesadelo da "brasilianização" . Como ativar o devir? De que "mundo estamos falando?

Paulo Arantes lembra que Mario de Andrade costumava dizer que o "luxo de antagonismos" da mestiçagem enaltecida por Freyre e Oswald escondia na realidade uma "imundície de contrastes". Ora, na troca de trocas de pontos de vista, a relação entre lixo e luxo, subdesenvolvimento e desenvolvimento, pobreza e riqueza pode ser não-dialética.

Ou seja, se na "imundície de contrastes" temos o im-mundo do poder sobre a vida (biopoder), da pobreza e do racismo, é nesse mesmo "lixo da hibridização que há a potência da vida (biopolítica), da significação e, pois, a riqueza do pobre.

Estamos diante daquela mesma alternativa radical: entre a globalização como perda-de-mundo (im-mundo do mercado dos fragmentos, da crise dos valores e de suas "Bolsas") e a produção ilimitada de novos valores, criação do mundo.

Por trás do estigma da brasilianização, temos um devir-Brasil do mundo e um devir-mundo do Brasil: é Lula, presidente retirante e operário que abre o caminho a Obama, presidente "vira-lata" que nunca resolve de maneira identitária a ambivalência de seu devir-mestiço. Mas esse plano é também o da ação afirmativa (política de cotas), da qual participou Obama, que deve consolidar-se no Brasil como terreno constituinte do arco-íris da mestiçagem.

E nessa multiplicidade dos pobres - indigenas, favelados e negros no Brasil; hispânicos, imigrantes e negros nos Estados Unidos - que a libertação aparece como um começo:

devir-Brasil do mundo e devir-mundo do Brasil.

GIUSEPPE COCCO, 52, cientista político, doutorem história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outras obras, escreveu, com Antonio Negri, o livro Glob(AL) - folha 20/11/08


(*) Devir: Palavra originária do francês devenir e correspondendo ao alemão werden. Possui enorme importância no estudo de filosofia, antiga e moderna, designando o ato de ir-se, de passar, de transformar-se, de fluir, de dirigir-se para. Passagem contínua dos fenômenos ou do finito ou do infinito. O processo e o próprio ato desta passagem. O ato de tornar-se, de vir de algo e ir para algo. (Dic. Enciclopédico Brasileiro - Álvaro Guimarães)

 

 

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