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O Discurso Sobre a Servidão
Voluntária de Etienne de La Boétie
Escrito
no século XVI por um jovem de apenas 18 anos, este discurso foi
intitulado como "o mais forte e vibrante hino à liberdade jamais
escrito". La Boétie questiona os motivos das pessoas se submetem à
tirania de um governo, concluindo que o motivo principal da existência
da tirania reside nas próprias pessoas, no seu espírito de servidão
voluntária. Comprova, por meio de argumentações, o estado de servidão em
que se encontrava a maioria dos homens naqueles tempos.
O Barão em Foco coloca este assunto em pauta, devido ao fato incontestável de que a
atual diferenciação social em nosso país, tem muito daqueles tempos.
Poucos, ou talvez nenhum poder do passado, ousou tomar sem
resistência da população, seus bens via tributação igual a nossa
sem fornecer benefícios em troca.
Apesar da maioria da população ter consciência do
destino desta nossa tributação para benefícios de poucos, permanece inerte,
submete-se ás conseqüências. Muitos dos que se recusam à esta inércia e à
servidão, caminham para o lado que lhes resta, chamada pelos inertes de
marginalidade. Esta marginalidade conseqüente, apesar de combatida pelos
inertes, está em constante ampliação e é uma das poucas esperanças para inverter o quadro
da servidão e diminuir o número de inertes. Quando isto acontecer a
nação será introduzida a um futuro de benefícios da tributação
distribuída igualmente. Infelizmente, a meu ver, ainda estamos longe
deste limite da quebra da inércia da população.
Morelli - redator do barão em foco
Discurso
Sobre a Servidão Voluntária
Etienne
de La Boétie
Muita
gente a mandar não me parece bem;
Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.
Assim proclamava publicamente Ulisses em Homero [Homero, Ilíada, cap.
II] Teria toda a razão se tivesse dito apenas:
Muita gente a mandar não me parece bem.
Deveria, para ser mais claro, ter explicado que o domínio de muitos
nunca poderia ser boa coisa pela razão de o domínio de um só que usurpe
o título de soberano ser já assaz duro e pouco razoável; em vez disso,
porém, acrescentou: Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.
Uma única desculpa terá Ulisses e é a necessidade que teve de recorrer a
tais palavras para apaziguar as tropas amotinadas, adaptando (julgo) o
discurso às circunstâncias mais do que à verdade.
Vistas bem as coisas, não há infelicidade maior do que estar sujeito a
um chefe; nunca se pode confiar na bondade dele e só dele depende o ser
mau quando assim lhe aprouver.
Ter vários amos é ter outros tantos motivos para se ser extremamente
desgraçado.
Não quero por enquanto levantar o discutidíssimo problema de saber se as
outras formas de governar a coisa pública são melhores do que a
monarquia. A minha intenção é antes interrogar-me sobre o lugar que à
monarquia cabe, se algum lhe cabe, entre as mais formas de governar.
Porque não é fácil admitir que o governo de um só tenha a preocupação da
coisa pública.
É melhor, todavia, que esse problema seja discutido separadamente, em
tratado próprio, pois é daqueles que traz consigo toda a casta de
disputas políticas.
Quero para já, se possível, esclarecer tão-somente o fato de tantos
homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem às vezes um tirano que
não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo;
que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem agüentá-lo a
contrariá-lo.
Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto
impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente
curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas
aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem
cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas
qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente.
Tal é a fraqueza humana: temos frequentemente de nos curvar perante a
força, somos obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais
fortes.
Se, portanto, uma nação é pela força da guerra obrigada a servir a um
só, como a cidade de Atenas aos trinta tiranos, não nos espanta que ela
se submeta; devemos antes lamentá-la; ou então, não nos espantarmos nem
lamentarmos mas sofrermos com paciência e esperarmos que o futuro traga
dias mais felizes.
Está na nossa natureza o deixarmos que os deveres da amizade ocupem boa
parte da nossa vida. É justo amarmos a virtude, estimarmos as boas
ações, ficarmos gratos aos que fazem o bem, renunciarmos a certas
comodidades para melhor honrarmos e favorecermos aqueles a quem amamos e
que o merecem. Assim também, quando os habitantes de um país encontram
uma personagem notável que dê provas de ter sido previdente a
governá-los, arrojado a defendê-los e cuidadoso a guiá-los, passam a
obedecer-lhe em tudo e a conceder-lhe certas prerrogativas; é uma
prática reprovável, porque vão acabar por afastá-lo da prática do bem e
empurrá-lo para o mal. Mas em tais casos julga-se que poderá vir sempre
bem e nunca mal de quem um dia nos fez bem.
Mas o que vem a ser isto, afinal?
Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício é
este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não
governadas mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam
chamar sua? Suportar a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um
exército, não de uma horda de bárbaros, contra os quais dariam o sangue
e a vida, mas de um só? Não de um Hércules ou de um Sansão, mas de um só
indivíduo, que muitas vezes é o mais covarde e mulherengo de toda a
nação, acostumado não tanto à poeira das batalhas como à areia dos
torneios, menos dotado para comandar homens do que para ser escravo de
mulheres?
Chamaremos a isto covardia? Temos o direito de afirmar que todos os que
assim servem são uns míseros covardes?
É estranho que dois, três ou quatro se deixem esmagar por um só, mas é
possível; poderão dar a desculpa de lhes ter faltado o ânimo. Mas quando
vemos cem ou mil submissos a um só, não podemos dizer que não querem ou
que não se atrevem a desafiá-lo.
Como não é covardia, poderá ser desprezo, poderá ser desdém? Quando
vemos não já cem, não já mil homens, mas cem países, mil cidades e um
milhão de homens submeterem-se a um só, todos eles servos e escravos,
mesmo os mais favorecidos, que nome é que isto merece? Covardia?
Ora todos os vícios têm naturalmente um limite além do qual não podem
passar. Dois podem ter medo de um, ou até mesmo dez; mas se mil homens,
se um milhão deles, se mil cidades não se defendem de um só, não pode
ser por covardia.
A covardia não vai tão longe, da mesma forma que a valentia também tem
os seus limites: um só não escala uma fortaleza, não defronta um
exército, não conquista um reino.
Que vício monstruoso então é este que sequer merece o nome vil de
covardia? Que a natureza nega ter criado, a que a língua se recusa
nomear?
Disponham-se de um lado cinqüenta homens armados e outros tantos de
outro lado; ponham-se em ordem de batalha, prontos para o combate, sendo
uns livres e lutando pela liberdade, enquanto os outros tentam
arrebatá-la dos primeiros: a quais deles, por conjectura, se atribui a
vitória? Quais deles irão para a luta com maior entusiasmo: os que, em
recompensa deste trabalho receberão o prêmio de conservar a liberdade ou
os que, dos golpes que derem ou receberem, esperam tão-somente a
servidão?
Os primeiros têm constantemente diante dos olhos a felicidade de sua
vida passada, a esperança de no porvir a poderem conservar. Preocupa-os
menos o que têm de sofrer no decurso da batalha do que tudo o que vão
ter de suportar eles, os filhos e toda a posteridade. Os outros nada têm
que os anime, a não ser um pouco de cobiça que é insuficiente para
protegê-los do perigo e tão pouco ardente que não tardará a extinguir-se
logo que derramem as primeiras gotas de sangue.
Nas muito famosas batalhas de Milcíades, Leônidas e Temístocles,
travadas há já dois mil anos e que permanecem tão frescas na memória dos
livros e dos homens como se tivessem acontecido ontem, nessas batalhas
travadas na Grécia para bem da Grécia e exemplo do mundo inteiro, donde
terá vindo aos gregos escassos não digo o poder mas o ânimo para se
oporem à força de navios tão numerosos que mal cabiam no mar? E para
desbaratarem nações tão numerosas que em toda a armada grega não se
achariam soldados que chegassem para preencherem, se tal fosse mister,
os postos de comandantes desses navios?
É que, em boa verdade, o que estava em causa nesses dias gloriosos não
era tanto a luta entre gregos e persas como a vitória da liberdade sobre
a dominação, da razão sobre a cupidez.
Quantos prodígios temos ouvido contar sobre a valentia que a liberdade
põe no coração dos que a defendem!
Mas o que acontece afinal em todos os países, com todos os homens, todos
os dias?
Quem, só de ouvir contar, sem o ter visto, acreditaria que um único
homem tenha logrado esmagar mil cidades, privando-as da liberdade?
Se casos tais acontecessem apenas em países remotos e outros no-los
contassem, quem não diria que era tudo invenção e impostura?
Ora o mais espantoso é sabermos que nem sequer é preciso combater esse
tirano, não é preciso defendermos-nos dele.
Ele será destruído no dia em que o país se recuse a servi-lo.
Não é necessário tirar-lhe nada, basta que ninguém lhe dê coisa alguma.
Não é preciso que o país faça coisa alguma em favor de si próprio, basta
que não faça nada contra si próprio.
São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem
esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir.
É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre
ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o
jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios.
Se fosse difícil recuperar a liberdade perdida, eu não insistiria mais;
haverá coisa que o homem deva desejar com mais ardor do que o retorno à
sua condição natural, deixar, digamos, a condição de alimária e voltar a
ser homem?
Mas não é essa ousadia o que eu exijo dele; limito-me a não lhe permitir
que ele prefira não sei que segurança a uma vida livre.
Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente
desejá-la?
Se basta um ato de vontade, se basta desejá-la, que nação há que a
considere assim tão difícil?
Como pode alguém, por falta de querer, perder um bem que deveria ser
resgatado a preço de sangue? Um bem que, uma vez perdido, torna, para as
pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar?
Veja-se como, ateado por pequena fagulha, acende-se o fogo, que cresce
cada vez mais e, quanto mais lenha encontra, tanta mais consome; e como,
sem se lhe despejar água, deixando apenas de lhe fornecer lenha a
consumir, a si próprio se consome, perde a forma e deixa de ser fogo.
Assim são os tiranos: quanto mais eles roubam, saqueiam, exigem, quanto
mais arruínam e destroem, quanto mais se lhes der e mais serviços se
lhes prestarem, mais eles se fortalecem e se robustecem até aniquilarem
e destruírem tudo. Se nada se lhes der, se não se lhe obedecer, eles,
sem ser preciso luta ou combate, acabarão por ficar nus, pobres e sem
nada; da mesma forma que a raiz, sem umidade e alimento, se torna ramo
seco e morto.
Os audazes, para que obtenham o que procuram, não receiam perigo algum,
os avisados não recusam passar por problemas e privações. Os covardes e
os preguiçosos não sabem suportar os males nem recuperar o bem. Deixam
de desejá-lo e a força para o conseguirem lhes é tirada pela covardia,
mas é natural que neles fique o desejo de o alcançarem. Esse desejo,
essa vontade, são comuns aos sábios e aos indiscretos, aos corajosos e
aos covardes; todos eles, ao atingirem o desejado, ficam felizes e
contentes.
Numa só coisa, estranhamente, a natureza se recusa a dar aos homens um
desejo forte. Trata-se da liberdade, um bem tão grande e tão aprazível
que, perdida ela, não há mal que não sobrevenha e até os próprios bens
que lhe sobrevivam perdem todo o seu gosto e sabor, corrompidos pela
servidão.
A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por
nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para
a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de
obter.
Gentes miserandas, povos insensatos, nações apegadas ao mal e cegas para
o bem!
Assim deixais que vos arrebatem a maior e melhor parte das vossas
riquezas, que devastem os vossos campos, roubem as vossas casas e vo-las
despojem até das antigas mobílias herdadas dos vossos pais!
A vida que levais é tal que (podeis afirmá-lo) nada tendes de vosso.
Mas parece que vos sentis felizes por serdes senhores apenas de metade
dos vossos haveres, das vossas famílias e das vossas vidas; e todo esse
estrago, essa desgraça, essa ruína provêm afinal não dos seus inimigos,
mas de um só inimigo, daquele mesmo cuja grandeza lhe é dada só por vós,
por amor de quem marchais corajosamente para a guerra, por cuja grandeza
não recusais entregar à morte as vossas próprias pessoas.
Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só
corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das
vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e
é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.
Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis?
Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas?
Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos?
Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha?
Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência?
Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos
rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos?
Semeais os vossos frutos para ele pouco depois calcar aos pés. Recheais
e mobiliais as vossas casas para ele vir saqueá-las, criais as vossas
filhas para que ele tenho em quem cevar sua luxúria.
Criais filhos a fim de que ele, quando lhe apetecer, venha recrutá-los
para a guerra e conduzi-los ao matadouro, fazer deles acólitos da sua
cupidez e executores das suas vinganças.
Matai-vos a trabalhar para que ele possa regalar-se e refestelar-se em
prazeres vis e imundos.
Enquanto vós definhais, ele vai ficando mais forte, para mais facilmente
poder refrear-vos.
E de todas as ditas indignidades que os próprios brutos, se as
sentissem, não suportariam, de todas podeis libertar-vos, se tentardes
não digo libertar-vos, mas apenas querer fazê-lo.
Tomai a resolução de não mais servirdes e sereis livres. Não vos peço
que o empurreis ou o derrubeis, mas somente que o não apoieis: não
tardareis a ver como, qual Colosso descomunal, a que se tire a base,
cairá por terra e se quebrará.
Os médicos aconselham a não se tocar com a mão nas chagas incuráveis;
não é, pois, sensato que eu dê conselhos a um povo que há muito perdeu a
consciência e cuja doença, uma vez que ele já não sente dor, é
evidentemente mortal. Temos, antes, de procurar saber como esse desejo
teimoso de servir se foi enraizando a ponto de o amor à liberdade
parecer coisa pouco natural.
Antes demais, eu creio firmemente que, se nós vivêssemos de acordo com a
natureza e com os seus ensinamentos, seríamos naturalmente obedientes ao
país, submissos à razão e de ninguém escravos.
Todos os homens, por si próprios, sem outro conselho que não seja o da
natureza, guardam obediência ao pai e à mãe; quanto à razão, discutem
muito os acadêmicos e todas as escolas filosóficas se ela nasce ou não
conosco.
De momento penso não errar se crer que há na nossa alma uma semente
natural de razão, a qual, se cultivada com bons conselhos e bons
costumes, floresce em virtude; se, pelo contrário, é atacada pelos
vícios, morre de asfixia e aborta.
Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido
ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de Deus e
governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma,
aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos
como companheiros ou mesmo irmãos.
Ao fazer as partilhas dos dons que nos legou, deu, mais a uns do que a
outros, certos dons corporais e espirituais; mas é igualmente certo que
não pretendeu pôr-nos neste mundo como em campo fechado, nem deu aos
mais fortes e aos mais avisados ordem para, quais salteadores emboscados
no mato e armados, dizimarem os mais fracos.
É de crer, isso sim, que, favorecendo alguns e desfavorecendo outros,
pretendia dar lugar à fraterna afeição, dar-lhes meios de se manifestar,
pois se a uns assiste o poder de ajudar, os outros tinham necessidade de
ser ajudados.
Esta boa mãe deu-nos a todos a terra para nela morarmos, albergou-nos a
todos numa mesma casa, moldou-nos a todos numa mesma massa, para assim
todos podermos mirar-nos e reconhecer-nos uns nos outros; a todos em
comum outorgou o grande dom da voz e da palavra para sermos mais amigos
e mais irmãos e, pela comum e mútua declaração dos nossos pensamentos,
estabelecermos a comunhão de nossas vontades.
E pois ela buscou por todos os meios apertar e estreitar mais fortemente
os nós da nossa aliança e sociedade, e por todas as formas mostrou mais
desejar ver-nos unidos do que unos, não há dúvida de que somos todos
companheiros e ninguém poderá jamais admitir que a natureza,
integrando-nos a todos numa sociedade, tenha destinado uns para
escravos.
Não importa verdadeiramente discutir se a liberdade é natural, provado
que esteja ser a escravidão uma ofensa para quem a sofre e uma injúria à
natureza que em tudo quanto faz é razoável.
Não há dúvidas, pois, de que a liberdade é natural e que, pela mesma
ordem e de idéias, todos nós nascemos não só senhores da nossa alforria
mas também com condições para a defendermos.
Se acaso pusermos isso em dúvida e descermos tão baixo que não sejamos
capazes de reconhecer qual o nosso direito e as nossas qualidades
naturais, vou ter de vos tratar como mereceis e por os próprios animais
a dar-vos lições e a ensinar-vos qual é vossa verdadeira natureza e
condição.
Só quem for surdo não ouve o que dizem os animais: viva a liberdade!
Muitos deles morrem quando os apanham. Como o peixe que, fora da água,
perde a vida, também outros animais se negam a viver sem a liberdade que
lhes é natural.
Se os animais estabelecessem entre si quaisquer grandezas e
proeminências, fariam (creio firmemente) da liberdade a sua nobreza.
Alguns há que, dos maiores aos menores, ao serem presos, opõem
resistência com as garras, os chifres, as patas e o bico, demonstrando
assim claramente o quanto prezam a liberdade perdida. E uma vez no
cativeiro, dão evidentes sinais do conhecimento que têm da sua desgraça
e deixam ver perfeitamente que se sentem mais mortos do que vivos,
continuando a viver mais para lamentarem a liberdade perdida do que por
lhes agradar a servidão.
O que quer dizer o elefante que, depois de se defender até mais não
poder, sentindo-se impotente e prestes a ser apanhado, espeta as presas
nas árvores e as quebra, assim mostrando o grande desejo que tem de
continuar livre como nasceu?
Assim dá a entender que deseja negociar com os caçadores, dando-lhes os
dentes para que o soltem, entregando-lhes o marfim em penhor da
liberdade.
Começamos a domesticar o cavalo, desde o momento em que ele nasce,
preparamo-lo para nos servir e não podemos glorificar-nos de que, uma
vez domado, ele não morde o freio e não se empina quando o esporeamos,
como se (assim parece) quisesse mostrar à natureza e testemunhar por
essa forma que serve não de boa vontade mas por ser obrigado a servir.
Que dizer perante isto? Que
Até os bois sob o jugo andam gemendo
E na gaiola as aves vão chorando
como escrevi no tempo em que versejava à francesa (não receio,
escrevendo-te me particular, citar versos meus, coisa que nunca faço;
como tens mostrado gostar deles, não me acusarás de ser pretensioso).
Todas as coisas que têm sentimento sentem a dor da sujeição e suspiram
pela liberdade; as alimárias, feitas para servirem o homem não são
capazes de se habituar à servidão sem protestarem desejos contrários.
A que azar, pois, se deverá que o homem, livre por natureza, tenha
perdido a memória da sua condição e o desejo de a ela regressar?
Há três espécies de tiranos. Refiro-me aos maus príncipes. Chegam uns ao
poder por eleição do povo, outros por força das armas, outros sucedendo
aos da sua raça.
Os que chegam ao poder pelo direito da guerra portam-se como quem pisa
terra conquistada.
Os que nascem reis, as mais das vezes, não são melhores; nascidos e
criados no sangue da tirania, tratam os povos em quem mandam como se
fossem seus servos hereditários; e, consoante a compleição a que são
mais atreitos, avaros ou pródigos, assim fazem do reino o que fazem com
outra herança qualquer.
Aquele a quem o povo deu o Estado deveria ser mais suportável; e
sê-lo-ia a meu ver, se, desde o momento em que se vê colocado em altos
postos e tomando o gosto à chamada grandeza, não decidisse ocupá-los
para todo o sempre. O que geralmente acontece é tudo fazerem para
transmitirem aos filhos o poder que o povo lhes concedeu. E, tão
depressa tomam essa decisão, por estranho que pareça, ultrapassam em
vício e até em crueldade os outros tiranos; para conservarem a nova
tirania, não acham melhor meio do que aumentar a servidão e afastar
tanto dos súditos a idéia de liberdade que eles, tendo embora a memória
fresca, começam a esquecer-se dela.
Assim, para dizer toda a verdade, encontro entre eles alguma diferença,
mas não vejo por onde escolher.
Sendo diversos os modos de alcançar o poder, a forma de reinar é sempre
idêntica.
Os eleitos procedem como quem doma touros; os conquistadores como quem
se assenhoreia de uma presa a que têm direito; os sucessores como quem
lida com escravos naturais.
Se acaso hoje nascesse um povo completamente novo, que não estivesse
acostumado à sujeição nem soubesse o que é a liberdade, que ignorasse
tudo sobre uma e outra coisa, incluindo os nomes, e se lhe fosse dado a
escolher entre o ser sujeito ou o viver a liberdade, qual seria a
escolha desse povo?
Não custa a responder que prefeririam obedecer à razão em vez de
servirem a um homem; a não ser que se tratasse dos israelitas, os quais,
sem ninguém os obrigar e sem necessidade, elegeram um tirano [I Samuel,
capítulo 8]; mas nunca leio a história de tal povo sem uma grande
decepção e alguma fúria, tanta que quase me alegro por lhe terem
acontecido tantas desgraças.
Uma coisa é certa, porém: os homens, enquanto neles houver algo de
humano, só de deixam subjugar se foram forçados ou enganados; enganados
pelas armas estrangeiras, como Esparta e Atenas pelas forças de
Alexandre, ou pelas facções, como aconteceu quando o governo de Atenas
caiu nas mãos de Pisístrates [Pisístrates (600 – 527) foi por três vezes
tirano de Atenas. Da primeira vez foi derrubado por Licurgo. Da segunda
por Hermódio e Aristogíton. Deve-se, contudo, a Pisístrates a compilação
das obras de Homero, como a Ilíada e a Odisséia.].
Muitas vezes perdem a liberdade porque são levados ao engano, não são
seduzidos por outrem mas sim enganados por si próprios. Assim, o povo de
Siracusa, cidade capital da Sicília, denominada hoje Saragoça [aqui
Boétie se equivoca...], apertado pelas guerras, sem olhar a nada a não
ser o perigo, elevou ao poder Dionísio Primeiro e entregou-lhe o comando
do exército. Tantos poderes lhe foi dando que o velhaco, uma vez
vitorioso, como se tivesse triunfado não sobre os inimigos, mas sobre os
cidadãos, subiu de capitão a rei e de rei a tirano.
Incrível coisa é ver o povo, uma vez subjugado, cair em tão profundo
esquecimento da liberdade que não desperta nem a recupera; antes começa
a servir com tanta prontidão e boa vontade que parece ter perdido não a
liberdade mas a servidão.
É verdade que, a princípio, serve com constrangimento e pela força; mas
os que vêm depois, como não conheceram a liberdade nem sabem o que ela
seja, servem sem esforço e fazem de boa mente o que seus antepassados
tinham feito por obrigação.
Assim é: os homens nascem sob o jugo, são criados na servidão, sem
olharem para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, nunca pensam
ter outro direito nem outro bem senão o que encontraram ao nascer,
aceitam como natural o estado que acharam à nascença.
E todavia não há herdeiro tão pródigo e desleixado que uma vez não passe
os olhos pelos livros de registros, para ver se goza de todos os
direitos hereditários e se não foi esbulhado nos seus direitos, ele ou o
seu predecessor.
Mas o costume, que sobre nós exerce um poder considerável, tem uma
grande orça de nos ensinar a servir e (tal como de Mitrídates se diz que
aos poucos foi se habituando a beber veneno) a engolir tudo até que
deixamos de sentir o amargor do veneno da servidão.
Não pode negar-se que a natureza tem força para nos levar aonde ela
queira e fazer a nós livres ou escravos; mas importa confessar que ela
tem sobre nós menos poder do que o costume e que a natureza, por muito
boa que seja, acaba por se perder se não for tratada com os cuidados
necessários; e o alimento que comemos transmite-nos muito de seu, faça a
natureza o que fizer.
As sementes do bem que a natureza em nós coloca são tão pequenas e
inseguras que não agüentam o embate do alimento contrário. Não se mantêm
facilmente, estragam-se, desfazem-se, reduzem-se a nada. Como acontece
com as árvores de fruto, possuidoras de uma natureza própria que
conservarão enquanto as deixarem; mas passarão a ter outra e a dar
frutos estranhos, não os delas, a partir do momento em que sejam
enxertadas.
As ervas têm cada uma a sua propriedade, a sua natureza e a sua
singularidade próprias; mas o frio, o tempo, a terra ou a mão do
jardineiro acrescentam-lhe ou tiram-lhe muitas das suas virtudes. Vê-se
num sítio uma planta que outro sítio não reconhece.
Vejam-se os venezianos, um punhado de pessoas livres, tanto que até o
pior de todos se recusaria a ser rei, nascidos e criados de tal modo que
a grande ambição deles é defenderem ciosamente a liberdade de cada um;
educados desde o berço nestes princípios, não aceitariam todas as outras
felicidades da terra, se para isso tivessem de perder a menor de suas
liberdades. Vejam-se os venezianos, repito, e repare-se depois nos que
habitam as terras daquele a que chamamos Grão-Senhor, gente que nada
mais faz do que servi-lo e que, para o manterem no poder, dão a própria
vida.
Diria quem visse uns e outros que possuem todos a mesma natureza?
Não julgaria antes que saíra de uma cidade de homens para entrar num
curral de animais? Licurgo, reformador de Esparta, criara (diz-se) dois
cães que eram irmãos, alimentados com o mesmo leite, um deles habituado
a ficar na cozinha e o outro acostumado a correr pelo campo, ao som da
trompa e da corneta; querendo mostrar ao povo lacedemônio que os homens
são o que a educação faz de cada um, colocou os dois cães no meio da
praça e, no meio deles, uma sopa e uma lebre. Um correu para o prato e o
outro para a lebre. Muito embora (disse ele) fossem irmãos.
Lembrarei com prazer um dito dos favoritos de Xerxes, senhor da Pérsia,
a respeito dos espartanos.
Quando Xerxes se aparelhava para conquistar a Grécia, mandou
embaixadores às cidades gregas, a pedir-lhes água e terra. A Esparta e
Atenas não os enviou, porque os enviados de seu pai, Dario que lá tinha
ido fazer igual pedido, tinham-nos os espartanos e atenienses lançado em
covas e outros em poços, dizendo-lhes que tirassem terra e água à
vontade e que fossem levá-la a seu príncipe.
Nenhum daqueles povos tolerava que, sequer por palavras, alguém lhes
tocasse na liberdade.
Por assim terem feito, viram os espartanos que tinham incorrido no ódio
dos próprios deuses, especialmente no de Taltíbio, deus dos arautos.
Para os apaziguarem, mandaram a Xerxes dois cidadãos, para que fossem à
presença dele e ele os tratasse como lhe aprouvesse, tirando assim a
desforra dos embaixadores que seu pai enviara e tinham sido mortos. Dois
espartanos, um de nome Specto e outro Bulis, ofereceram-se
voluntariamente para esta missão.
Foram e, pelo caminho, entraram no palácio de um persa chamado Gidarno,
lugar-tenente do rei em todas as cidades do litoral da Ásia. Este os
recebeu com muita honraria. E como fossem conversando sobre vários
assuntos, perguntou-lhes que motivos tinham para recusarem a amizade do
rei. “Podeis crer, espartanos (dizia-lhes), juro-vos que o rei sabe
honrar quem o merece e, se vos tornardes seus súditos, vereis que assim
é. Se aceitardes e ele vos conhecer, vereis como será cada um de vós
nomeado imediatamente senhor de uma cidade da Grécia.”
Ao que lhe responderam os lacedemônios: “Ruim conselho é o que nos dás,
Gidarno. O bem que nos prometes, já o experimentaste, mas nada sabes do
que nós já possuímos; gozas do favor do rei, mas nada sabes da
liberdade, do gosto que ela tem, da sua doçura. Se a conhecesses, havias
de nos aconselhar a defendê-la, não só com lança e escudo, mas até com
unhas e dentes.”
O espartano é que tinha razão; mas um e outro falavam de acordo com o
que tinham aprendido.
Não era possível ao persa avaliar a liberdade, pois nunca a tivera, nem
ao lacedemônio aceitar a sujeição, depois de ter conhecido o gosto da
liberdade.
Catão de Útica, quando era ainda menino de escola, entrava muitas vezes
na casa do ditador Sila cujas portas lhe estavam abertas, não só por
pertencer a uma família nobre, como até por ser parente próximo de Sila.
Acompanhava-o sempre o preceptor, como era costume entre os filhos de
boas famílias.
Deu ele então conta de que em casa de Sila, na presença deste ou por sua
ordem, muitos cidadãos eram presos e condenados, eram uns banidos e
outros estrangulados, decretava-se a confiscação dos bens e era perdida
a cabeça de muitos.
Ou seja, mais parecia o paço do tirano do que a morada do governador da
cidade, era menos um tribunal de justiça do que uma espelunca da
tirania.
Perguntou o nobre infante ao preceptor: “Dar-me-eis um punhal?
Metê-lo-ei sob a toga e, como entro muitas vezes nos aposentos de Sila,
antes de ele acordar, o meu braço há de ter força suficiente para
libertar o povo.”.
Este é um dito digno de Catão. Assim já se revelava digno da morte que
teve.
Mas se porventura a história não referisse o nome dele nem o local,
seria facílimo adivinhar que se trata de um romano e natural de Roma, da
verdadeira Roma, quando ela era livre.
Mas para que dizer mais? Em boa verdade não creio que o país o a terra
importem muito. Em todos os países em todos os climas, sabe mal a
sujeição e é gostosa a liberdade.
Dignos de dó são os que nasceram com a canga no pescoço.
Devem ser desculpados e perdoados, pois, nunca tendo visto sequer a
sombra da liberdade e ninguém lha tendo mostrado, não sabem como é mal
serem escravos.
Há países em que o Sol aparece de modo diverso daquele a que estamos
habituados: depois de brilhar durante seis meses seguidos, deixa-os
ficar mergulhados na escuridão, nunca os visitando no meio do ano; se os
que nasceram durante essa longa noite nunca tivessem ouvido falar do
dia, seria de espantar que eles se habituassem às trevas em que nasceram
e nunca desejassem a luz?
Nunca se lastima o que não se conhece, só se tem desgosto depois de ter
gozado o prazer, depois de se ter conhecido o bem e se recordar a
alegria passada.
É natural no homem o ser livre e o querer sê-lo; mas está igualmente na
sua natureza ficar com certos hábitos que a educação lhe dá.
Diga-se, pois, que acaba por ser natural tudo o que o homem obtém pela
educação e pelo costume; mas da essência da sua natureza é o que lhe vem
da mesma natureza pura e não alterada; assim, a primeira razão da
servidão voluntária é o hábito: provam-no os cavalos sem rabo que no
princípio mordem o freio e acabam depois por brincar com ele; e os
mesmos que se rebelavam contra a sela acabam por aceitar a albarda e
usam muito ufanos e vaidosos os arreios que os apertam.
Afirmam que sempre viveram na sujeição, que já os pais assim tinham
vivido. Pensam que são obrigados a usar freio, provam-no com exemplos e
com o fato de há muito serem propriedade daqueles que os tiranizam.
Mas a verdade é que os anos não dão o direito de se praticar o mal,
antes agravam a injúria.
Sempre haverá umas poucas almas melhor nascidas do que outras, que
sentem o peso do jugo e não evitam sacudi-lo, almas que nunca se
acostumam à sujeição e que, à imitação de Ulisses, o qual por mar e
terra procurava avistar o fumo de sua casa, nunca se esquecem dos seus
privilégios naturais, nem dos antepassados e de sua antiga condição.
São esses dotados de claro entendimento e espírito clarividente; não se
limitam, como o vulgo, a olhar só para o que têm adiante dos pés, olham
também para trás e para frente e, estudando bem as coisas passadas,
conhecem melhor o futuro e o presente.
Além de terem um espírito bem formado, tudo fazem para aperfeiçoá-lo
pelo estudo e pelo saber.
Esses, ainda quando a liberdade se perdesse por completo e desaparecesse
para sempre do mundo, não deixariam de imaginá-la, de senti-la e
saborear; para eles, a servidão, por muito bem disfarçada que lhes
aparecesse, nunca seria coisa boa.
O Grão-Turco teve perfeita consciência de que os livros e a doutrina,
mais do que qualquer outra coisa, dão aos homens a capacidade de se
conhecerem e de odiarem a tirania. Sabe-se que nas suas terras não há
mais sábios do que os que lhe convém a ele.
Acontece que o zelo e a dedicação dos que, apesar de tudo, prezam a
liberdade, não têm efeito algum, pois, mesmo que sejam em grande número,
não se podem conhecer uns aos outros.
A tirania subtrai-lhes toda e qualquer liberdade de agir, de falar e
quase de pensar.
Têm de guardar só para eles as suas fantasias. Razão tinha Momo para
zombar, quando censurou o homem forjado por Vulcano, por não lhe ter
feito no coração uma janela através da qual pudessem ser vistos os seus
pensamentos.
É sabido que Brutus e Cássio, ao planejarem a libertação de Roma, ou
antes, do mundo inteiro, não quiseram que Cícero, o maior zelador do bem
público, entrasse na conspiração; julgaram que tinha um coração
demasiado débil para tal façanha, confiavam na vontade dele, mas não
estavam muito seguros da sua coragem. Quem estudar os efeitos da
antiguidade e as velhas crônicas descobrirá que, vendo-se o país mal
governado e maltratado, e tomando-se a decisão firme de libertá-lo,
poucos ou nenhum deixaram de consegui-lo; tiveram nisso a ajuda da
própria liberdade, ansiosa por renascer.
Harmódio, Aristogíton, Trasíbulo, Brutus-o-Velho, Valério e Díon
executaram cabalmente o que valorosamente planejaram. Em casos assim, a
sorte quase nunca falta a quem quer o bem. O jovem Brutus e Cássio
derrubaram a servidão e repuseram a liberdade, tendo por isso morrido,
mas não desonrosamente. Desonroso seria dizer que foi desonrosa a vida
ou a morte desses jovens. Tristeza e desgraça foram a ruína da república
que viria a ser enterrada com eles. As conjuras que depois houve contra
os imperadores romanos foram todas atos de gente ambiciosa e não devemos
lamentar as derrotas que sofreram; era evidente que não queriam derrubar
mas arruinar a coroa, pretendiam expulsar o tirano e manter a tirania.
Não é para mim desejável que eles tivessem triunfado e apraz-me que,
pelo exemplo, tenham mostrado com não se deve abusar do sagrado nome da
liberdade para levar a cabo ruins empreendimentos.
Mas, voltando ao assunto principal de que me afastei: a primeira razão
que leva os homens a servirem de boamente é o terem nascidos e sido
criados na servidão.
A esta soma-se outra que é a de, sob a tirania, os homens se tornarem
covardes e efeminados.
Nisso concordo com Hipócrates, pai da medicina, que assim afirmou e
escreveu num de seus livros, intitulado Das Doenças.
Este homem tinha o coração no lugar e bem o demonstrou quando o rei quis
atraí-lo para junto de si, com muitas dádivas e oferendas; respondeu-lhe
francamente que teria muitos escrúpulos em tratar e curar os bárbaros
que queriam matar os gregos e de pôr a sua arte a serviço de um rei que
pretendia escravizar a Grécia.
A carta que lhe mandou pode ainda hoje ver-se entre as suas outras obras
e constituirá para todo o sempre uma prova do seu bom coração e de sua
natureza nobre.
Com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a valentia.
As pessoas escravizadas não mostram no combate qualquer ousadia ou
intrepidez.
Vão para o castigo como que manietadas e entorpecidas, como quem vai
cumprir uma obrigação.
E não sentem arder no coração o fogo da liberdade que faz desprezar o
perigo e dá ganas de comprar com a morte, ao lado dos companheiros, a
honra da glória.
Entre homens livres, todos disputam invejosamente quem há de ser o
primeiro a servir o bem comum; todos desejam ter o seu quinhão no mal da
derrota ou no bem da vitória. Mas as pessoas escravizadas, além desta
falta de valor na guerra, perdem também a energia em todo o resto, têm o
coração abatido e mole e não são capazes de grandes ações.
Os tiranos o sabem e, à vista deste vício, tudo fazem para piorá-lo.
Xenofonte, historiador grave e da melhor cepa entre os gregos, em um
livro fez Simônides falar com Hierão, rei de Siracusa, sobre as misérias
dos tiranos.
É um livro eivado de bons costumes e graves argumentos e, a meu ver,
escrito com muita graça. Bom seria que todos os tiranos que já houve
pusessem diante dos olhos e dele se servissem como de um espelho.
Não creio que deixassem de ver nele todas as suas verrugas e não se
envergonhassem de todas as suas manchas.
Conta no referido tratado o tormento por que passam os tiranos que, por
fazerem mal a todos, a todos devem temer.
Diz entre outras coisas que os maus reis recorrem a estrangeiros para
fazerem a guerra, subornam-nos e não se atrevem a meter armas nas mãos
dos próprios súditos a quem ofenderam.
Reis houve, alguns até franceses, mais outrora do que nos dias de hoje,
que contrataram para a guerra mais de uma nação estrangeira, com
intenção de preservarem os seus, por acharem que não era perdido o
dinheiro gasto em defesa das pessoas.
Era o que dizia Cipião (o grande Africano, julgo) para quem valia mais
defender a vida de um cidadão do que desbaratar cem inimigos.
Mas não há dúvida alguma de que o tirano se julga absolutamente seguro e
só se preocupa quando percebe que já não tem a seu serviço um único
homem de valor.
Com razão se lhe poderá dizer nessa altura o que Trasão, em Terêncio, se
gloria de ter dito ao domador de elefantes:
Tão bravo vos hei mostrado
Que sois das bestas criado.
Mas esse estratagema com que os tiranos humilham os súditos está, mais
do que em qualquer outro lado, explicitado no que Ciro fez aos lídios,
depois de se ter apoderado de Sardes, capital da Lídia, quando
aprisionou o riquíssimo rei Creso e o levou cativo. Trouxeram-lhe a
notícia de que os de Sardes se tinham revoltado. Ter-lhe-ia sido fácil
dominá-los.
Não desejando saquear uma tão bela cidade nem querendo destacar para lá
um exército que a vigiasse, recorreu a um outro expediente. Fundou nela
bordéis, tabernas e jogos públicos e publicou um decreto que obrigava os
habitantes a freqüentá-los.
Tão bons resultados teve esta guarnição que foi desnecessário daí em
diante levantar a espada contra os lídios. Os desgraçados divertiram-se
a inventar toda a casta de jogos, de tal forma que a palavra latina
usada para significar “passatempos” é a palavra “ludi”, que vem de “Lydi”,
lídios.
Nem todos os tiranos foram tão explícitos no seu desejo de efeminarem os
homens, mas o que este ordenou formalmente foi, em grande parte,
realizado de forma velada.
É muito próprio do vulgo, mormente o que pulula nas cidades, desconfiar
de quem o estima e ser ingênuo para com aqueles que o enganam.
Atrair o pássaro com o apito ou o peixe com a isca do anzol é mais
difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhes junto
à boca um engodo insignificante.
É espantoso como eles se deixam levar pelas cócegas.
Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as
medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos
engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania.
Deste meio, desta prática, destes engodos se serviam os tiranos para
manterem os antigos súditos sob o jugo. Os povos, assim ludibriados,
achavam bonitos estes passatempos, divertiam-se com o vão prazer que
lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade
igual, se bem que mais nociva, à das crianças que aprendem a ler
atraídas pelas figuras coloridas dos livros iluminados.
Os tiranos romanos decretaram também na celebração freqüente das
decenálias públicas, para as quais atraiam a canalha que põe acima de
tudo os prazeres da boca.
Nem o mais esclarecido de todos eles trocaria a malga da sopa pela
liberdade da república de Platão.
Os tiranos ofereciam o quarto de trigo, o sesteiro de vinho e o
sestércio. E os vivas ao rei eram então coisa triste de ouvir.
Não davam conta, os néscios, de que recuperavam dessa forma parte do que
era seu e que não podia o tirano dar-lhes coisa que não lhes tivesse
furtado antes.
O que hoje ganhava o sestércio, o que se fartava de comer no festim
público, louvando a grande liberalidade de Tibério e Nero, era no dia
seguinte obrigado a entregar os seus haveres à avareza, os filhos da
luxúria e o próprio sangue à crueldade daqueles magníficos imperadores,
e fazia-o sem dizer palavra, mudo como uma pedra, quedo como um cepo.
O povo sempre foi assim.
É perante o prazer que honestamente não pode atingir, aberto e dissoluto
e, face ao agravo e à dor que honestamente não deveria sofrer,
insensível.
Não sei hoje em dia de pessoa alguma que, ao ouvir falar de Nero, não
trema só com o nome de tão vil monstro, de tão hedionda e imunda besta.
Pode, porém, dizer-se que após a sua morte, vil tanto quanto foi a sua
vida, o povo romano ficou com tanta pena (por se lembrar dos seus jogos
e festins) que pouco faltou para vestir luto. Assim o escreveu Cornélio
Tácito, autor dos melhores e mais graves, e só pode estranhar o fato
quem não conheça bem o que o povo fez após a morte de Júlio César, que
tinha abolido as leis e a liberdade.
Achavam que era um homem sem valor (creio), mas louvaram muito a sua
humanidade que afinal foi tão nociva como a crueldade mais selvagem de
todos os tiranos.
Em boa verdade, a sua peçonhenta doçura serviu só para adoçar a servidão
que impôs ao povo romano.
Mas, depois de morto, o dito povo, que tinha ainda na boca o sabor dos
banquetes e a recordação das suas prodigalidades, queimou, para honrá-lo
e incinerá-lo, todos os bancos da praça, edificou-lhe uma coluna, como a
um verdadeiro pai do povo (assim rezava a inscrição no capitel), e
prestou-lhe mais honrarias, após a morte, do que a qualquer outro homem,
à exceção talvez dos que o mataram.
Os imperadores romanos não deixavam de tomar sempre o título de tribuno
do povo, seja porque seu cargo era tido na conta de santo e sagrado,
seja porque havia sido estabelecido para se defenderem do povo e estarem
sob o favor do estado.
Deste modo tinham por certo que o povo lhes daria toda a confiança,
tendo em maior consideração o título do que os atos deles.
Não procedem melhor hoje em dia os que sempre que cometem aleivosias,
incluindo as mais graves, fazem-nas acompanhar de discursos sobre o bem
comum e a utilidade pública.
Não ignoras, Longa, os considerandos de que habilmente eles costumam
lançar mão. Mas na maioria das vezes não há habilidade que chegue para
cobrir tanto despudor.
Os reis assírios, e depois deles os medos, só apareciam em público o
mais tarde possível, ao anoitecer, para a populaça julgar que eles
tinham algo de sobre-humano, assim iludindo as gentes propensas ao
devaneio e amigas de imaginar aquilo que não vêem claramente visto.
Foi assim que as nações que durante longos anos pertenceram ao império
sírio se habituaram, com tal mistério, a servir e serviam tanto mais
quanto não sabiam quem era o soberano; e todos o respeitavam e temiam,
sem nenhum deles o ter visto.
Os primeiros reis do Egito, esses nunca se mostravam em público sem
levarem um ramo ou uma luz na cabeça e mascaravam-se como saltimbancos,
coisa tão estranha de ver que os súditos se enchiam de respeito e
veneração por eles; e havia gente tão doida e tão submissa que se
prestava a tal comédia em vez de com ela se rir. Faz pena ouvir comentar
as artimanhas a que os tiranos de antigamente recorriam para
consolidarem as suas tiranias e o modo como de coisas somenos tiravam
grande partido.
Tinham compreendido ser possível fazerem o que quisessem de um povo que
se deixava apanhar na rede, por muito frágil que ela fosse, um povo tão
fácil de enganar e submeter que quanto mais dele zombavam mais se
rebaixava.
E que direi daquela outra patranha a que os povos antigos sempre deram
grande crédito? Acreditaram, de fato, que o dedo grande do pé de Pirro,
rei dos epirotas, fazia milagres e curava as doenças do baço.
Acreditavam na lenda de que o dito dedo, após a cremação do corpo de
Pirro, ficaria inteiro no meio das cinzas.
Era o próprio povo que forjava as mentiras em que posteriormente
acreditava. Muitos assim o escreveram e, pelo modo como o fizeram, é
patente que se limitaram a reunir o que ouviam dizer nas cidades entre o
povo miúdo.
Vespasiano, no regresso da Assíria, passando por Alexandria a caminho de
Roma, tomar o governo do Império, teria realizado muitos milagres.
Punha os coxos a andar, dava vista aos cegos e obrava muitas outras
façanhas em que só podia acreditar quem fosse mais cego do que aqueles a
quem pretensamente curava.
Até os mesmos tiranos se espantavam com a forma como os homens podem
suportar um homem que lhes faz mal; utilizavam por isso o disfarce da
religião e, se possível, tomavam o aspecto de certas divindades, disso
se servindo para protegerem a má vida que levavam.
Se dermos credo à Sibila de Virgílio e à sua descrição do inferno,
Salmoneu, por ter zombado dos deuses e vestido a indumentária de
Júpiter, está agora no fundo do inferno a receber o castigo que merece:
... As penas vi cruéis e penetrantes
De Salmoneu soberbo, que tanto erra,
De Júpiter Tonante o raio horrendo
E do Olimpo os trovões contrafazendo.
De quatro frisões este conduzido
Uma tocha acendida meneando,
Pelos povos de Grécia ia atrevido,
E pelo meio de Elides triunfando.
O culto aos altos deuses só devido
Pedia: mentecapto, que rodando
Pela ponte no coche miserável,
Fingia a chuva e o raio imitável.
Mas de uma nuvem densa um raio horrendo,
Vibrando irado, o padre onipotente
O derrubou com ímpeto tremendo,
Não com fumoso raio ou tocha ardente...
[Eneida, Virgílio, Cap. VI]
Se este, cujo crime foi fazer de tolo, padece hoje tais tormentos no
inferno, é de crer que merecem muito pior os que abusaram da religião
para fins ruins.
Os nossos semearam pela França sapos, flores de lis, a ampola e a
oriflama. Pela parte que mais me cabe, não ponho em dúvida que os nossos
maiores e nós não temos razão de queixa, pois sempre tivemos reis bons
em tempo de paz, valorosos na guerra, reis que, embora sendo-o de
nascença, parecem ter sido não criados pela natureza, como os outros,
mas eleitos por Deus Todo-poderoso, antes de tomarem nas mãos as rédeas
do governo e a guarda do reino.
Ainda que assim não fosse, não poria em dúvida a verdade contada pelas
nossas histórias, nem as discutiria com vistas a rebaixar a nossa bela
nação e deslustrar a nossa poesia francesa, a qual, mais do que
remoçada, está hoje completamente renovada graças aos nossos Ronsard,
Baïf e Du Bellay, que fizeram evoluir a nossa língua a pontos (ouso
esperá-lo) de os gregos e latinos não serem em nada superiores, a não
ser quiçá no direito de antiguidade.
E seria da minha parte grande ofensa à nossa métrica (uso de boa mente a
palavra e não me desagrada) que, tornada embora por muitos mecânica, tem
muita gente capaz de enobrecê-la e de restituí-la à sua honra primitiva,
seria, digo, grande ofensa, subtrair-lhe os belos contos do rei Clóvis,
nos quais julgo ver despontar fácil e elegantemente a veia do nosso
Ronsard e da sua Francíada. Pressinto o seu alcance, reconheço-lhe a
graça e finura de espírito. Tem arte para fazer da oriflama o que os
romanos fizeram das ancilas, como diz Virgílio: “E os escudos do céu
jazendo em terra”. Erguerá a nossa ampola tanto quanto os atenienses o
cesto de Eríctono; e as nossas armas serão faladas tanto quanto o foi a
oliveira que ainda hoje se encontra na torre de Minerva. Seria de fato
ultrajante renegar os nossos livros e desdizer os nossos poetas.
Mas voltando ao assunto de que sem querer me afastei, quem mais do que
os tiranos tem conseguido para sua segurança, habituar o povo não só à
obediência e à servidão, mas até à devoção? Tudo, pois, o que até aqui
disse sobre o hábito de as pessoas serem voluntariamente escravas
aplica-se apenas às relações entre os tiranos e a arraia miúda e
embrutecida.
Passarei agora a um ponto que, a meu ver, constitui o segredo e a mola
da dominação: o apoio e o alicerce da tirania.
Quem pensar que as alabardas dos guardas e das sentinelas protegem o
tirano, está, na minha opinião, muito enganado; usam-nos, creio, mais
por formalidade e como espantalho do que por lhes merecerem a confiança.
Os arqueiros vedam a entrada no paço aos pouco hábeis, aos que não têm
meios, não aos bem armados e aos façanhudos.
Dos imperadores romanos se pode dizer que foram menos os que escaparam
de qualquer perigo por intervenção dos arqueiros do que os que pelos
próprios guardas foram mortos.
Não são as hordas de soldados a cavalo, não são as companhias de
soldados peões, não são as armas que defendem o tirano.
Parece à primeira vista incrível, mas é a verdade. São sempre quatro ou
cinco os que estão no segredo do tirano, são esses quatro ou cinco que
sujeitam o povo à servidão.
Sempre foi a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram
sempre esses os que lograram aproximar-se dele ou ser por ele
convocados, para serem cúmplices das suas crueldades, companheiros dos
seus prazeres, alcoviteiros suas lascívias e com ele beneficiários das
rapinas. Tal é a influência deles sobre o caudilho que o povo tem de
sofrer não só a maldade dele como também a deles. Essa meia dúzia tem ao
seu serviço mais seiscentos que procedem com eles como eles procedem com
o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil devidamente ensinados a
quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do
dinheiro, para que eles ocultem as suas avarezas e crueldades, para
serem seus executores no momento combinado e praticarem tais malefícios
que só à sombra deles podem sobreviver e não cair sob a alçada da lei e
da justiça. E abaixo de todos estes vêm outros.
Quem queira perder tempo a desenredar esta complexa meada descobrirá
abaixo dos tais seis mil mais cem mil ou cem milhões agarrados à corda
do tirano; tal como em Homero Júpiter se gloria de que, puxando a corda,
todos os deuses virão atrás.
Tal cadeia está na origem do crescimento do Senado no tempo de Júlio, do
estabelecimento de novos cargos e das eleições de ofícios, que não são
de modo algum uma reforma na justiça, mas novo apoio à tirania.
E, pelos favores, ganhos e lucros que os tiranos concedem chega-se a
isto: são quase tantas pessoas a quem a tirania parece proveitosa como
as que prezam a liberdade.
Dizem os médicos que, havendo no nosso corpo uma parte afetada, é nela
que naturalmente se reúnem os humores malignos; da mesma forma, quando
um rei se declara tirano, tudo quanto é mau, a escória do reino (não me
refiro aos larápios e outros desorelhados que no conjunto da república
não fazem bem ou mal algum), os que são ambiciosos e avarentos, todos se
juntam à volta dele para apoiarem-no, para participarem do saque e serem
outros tantos tiranetes logo abaixo do tirano.
É o caso dos grandes ladrões e corsários famosos. Há uns que exploram o
país e assaltam os viajantes; estão uns de emboscada e outros à
espreita; uns chacinam, outros saqueiam e, havendo muito embora alguns
mais proeminentes, uns que são criados e outros chefes de bando, todos
afinal se sentem donos, senão do espólio principal, pelo menos de parte
dele.
Conta-se que os piratas sicilianos não só se juntaram em tão grande
número que foi mister enviar contra eles Pompeu Magno, como também
conseguiram estabelecer alianças com algumas belas cidades e grandes
praças fortes em cujos portos ancoravam com toda a segurança, no
regresso do corso, dando-lhes em recompensa uma parte dos bens que
rapinavam.
O tirano submete a uns por intermédio dos outros.
É assim protegido por aqueles que, se algo valessem, antes devia recear,
e dá razão ao adágio que diz ser a lenha rachada com cunhas feitas da
mesma lenha.
Vejam-se os arqueiros, os guardas e porta-estandartes que do tirano
recebem não poucos agravos.
Mas os desgraçados, banidos por Deus e pelos homens, suportam de boa
mente o mal e descarregam depois esse mal não naquele que os maltrata,
mas nos que são como ele maltratados e não têm defesa.
À vista dos que servilmente giram em redor do tirano, a executar as suas
tiranias e a oprimir o povo, fico muitas vezes espantado com a maldade
deles e sinto igualmente pena de tanta estupidez.
Porque, em boa verdade, o que fazem eles, ao acercarem-se do tirano,
senão afastarem-se da liberdade, darem (por assim dizer) ambas as mãos à
servidão e abraçarem a escravatura?
Ponham eles algum freio à ambição, renunciem um pouco à avareza, olhem
depois para si próprios, vejam-se bem e perceberão claramente que os
camponeses, os servos que eles espezinham e tratam como escravos são em
comparação com eles, livres e felizes.
O camponês e o artesão, embora servos, limitam-se a fazer o que lhes
mandam e, feito isso, ficam quites.
Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão
limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas
vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os
pensamentos.
Não basta que lhe obedeçam, têm de lhe fazer todas as vontades, têm de
se matar de trabalhar nos negócios dele, de ter os gostos que ele tem,
de renunciar à sua própria pessoa e de se despojar do que a natureza
lhes deu.
Têm de se acautelar com o que dizem, com as mínimas palavras, os mínimos
gestos, com o modo como olham; não têm olhos, nem pés, nem mãos, têm de
consagrar tudo ao trabalho de espiar a vontade e descobrir os
pensamentos do tirano.
Será isto viver feliz? Será isto vida? Haverá no mundo coisa mais
insuportável do que isto? Não me refiro sequer a homens bem nascidos,
mas sim a quem tenha o sentido do bem comum ou, para mais não dizer,
cara de homem. Haverá condição mais miserável do que viver assim, sem
ter nada de seu, sujeitando a outrem a liberdade, o corpo, a vida?
Fazem tudo o que fazem para ganharem fortuna...
Como se pudessem ganhar alguma coisa de seu, quando da sua própria
pessoa não podem dizer que seja sua.
Como se fosse possível, na presença do tirano, alguém possuir o que quer
que seja, eles fazem tudo para acumularem riquezas e não se lembram de
que são eles que lhe dão a força para roubar tudo a todos, não deixando
a ninguém nada de seu.
Vêem que é o ter que mais sujeita os homens à crueldade, que não há para
o tirano crime mais digno de morte do que a posse de quaisquer bens; que
ele só quer possuir riquezas, que rouba aos ricos que se apresentam
diante dele como num matadouro, para que ele os veja bem recheados e
ornados e deles tenha inveja.
Estes favoritos deveriam lembrar-se menos dos poucos que no convívio com
o tirano ganharam fortunas do que dos muitos que, tendo acumulado assim
alguns haveres, acabaram por perder os bens e a vida.
Bom será pensar que, se alguns poucos ganharam riquezas, pouquíssimos
foram os que as conservaram.
Percorreram-se as histórias antigas, pense-se nas de fresca data e se
verá claramente quão grande é o número dos que, ganhando as boas graças
dos príncipes com falsidades e tendo recorrido à maldade ou abusado da
simplicidade deles, acabaram por ser aniquilados pelos mesmos príncipes,
os quais, tão facilmente quanto os tinham elevado, viram que não podiam
conservá-los.
Entre o grande número de pessoas que algum dia viveram nas cortes dos
maus reis, poucos ou nenhum escaparam de sentir em si a crueldade do
tirano a quem tinham acirrado contra os outros.
Tendo o mais das vezes enriquecido, à custa da proteção deles, com os
despojos dos outros, foram eles que depois enriqueceram os outros com
seus próprios despojos.
As próprias pessoas de bem, se acaso as há ao redor do tirano e gozam
das suas graças, enquanto nelas brilha a virtude e a integridade, que,
vistas de perto, até aos maus inspiram respeito, essas pessoas de bem
não ficarão muito tempo sem perceber o mal que os outros sofrem e
aprenderão às suas custas os malefícios da tirania.
Sêneca, Burro, Trázeas, esse trio de pessoas de bem que tiveram a pouca
sorte de viver perto do tirano e a missão de tratar dos seus negócios,
foram todos por ele estimados e benquistos; um deles fora seu preceptor
e tinha como penhor da amizade e educação que lhe dera; ora todos eles
testemunharam pela sua morte cruel quão pouca confiança merecem os
tiranos.
Que amizade, afinal, pode esperar-se daquele cujo coração é tão duro que
odeia o próprio reino que em tudo lhe obedece? Que, por não conseguir
fazer-se amar, se empobrece e destrói seu império?
Poderá dizer-se que todos os que referi, incorreram em grandes
desgraças, por terem sido virtuosos; mas olhemos também para o resto do
séqüito do tirano e veremos que todos quantos obtiveram os seus favores
e os mantiveram por maldade acabaram por não durar muito.
Onde se ouviu falar de amor mais dedicado, de afeto mais duradouro, onde
é que já se viu homem mais obstinadamente preso a uma mulher do que ele
estava a Pompéia, a quem afinal envenenou?
Agripina, mãe de Nero, matara o marido Cláudio para por o filho no
trono. Fez-lhe todas as vontades, não se poupou a trabalhos para lhe
agradar. Ora foi esse mesmo filho por ela gerado e feito imperador, foi
ele que, depois de muitas vezes, debalde, o tentar, acabou por lhe tirar
a vida; e ninguém depois diria que ela não mereceu esse castigo, mas a
opinião geral é que devia tê-lo recebido das mãos de outrem e não
daquele que lho infligiu.
Onde houve já homem mais fácil de manobrar, mais simples, digamos até
mais ingênuo do que o Imperador Cláudio? Quem se apaixonou algum dia por
uma mulher mais do que ele por Messalina? Nem por isso deixou de
entregá-la ao carrasco. A simplicidade é uma crueldade de todos os
tiranos: tanto que todos ignoram o que seja praticar o bem. Mas, não sei
como, chega sempre o dia em que usam de crueldade para com os que os
rodeiam e a pouca inteligência que possuem desperta de imediato.
É bem conhecida a palavra daquele que, vendo a descoberto o colo da
mulher amada, sem a qual parecia não poder viver, a acariciou, dizendo:
este belo pescoço, logo que eu o ordene, pode ser cortado.
Por isso é que a maior parte dos antigos tiranos eram geralmente mortos
pelos seus favoritos, os quais, uma vez conhecida a natureza da tirania,
perdiam toda a fé na vontade do tirano e desconfiavam do seu poder.
Assim foi que Domiciano morreu às mãos de Estevão, Cômodo assassinado
por uma das suas amantes, Antonino por Macrino, e o mesmo aconteceu com
quase todos os outros.
A verdade é que o tirano nunca é amado nem ama.
A amizade é uma palavra sagrada, é uma coisa santa e só pode existir
entre pessoas de bem, só se mantém quando há estima mútua; conserva-se
não tanto pelos benefícios quanto por uma vida de bondade.
O que dá ao amigo a certeza de contar com o amigo é o conhecimento que
tem da sua integridade, a forma como corresponde à sua amizade, o seu
bom feitio, a fé e a constância.
Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há
injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para
travarem amizade. Apóiam-se uns aos outros, mas temem-se reciprocamente.
Não são amigos, são cúmplices.
Ainda que assim não fosse, havia de ser sempre difícil achar num tirano
um amor firme. É que, estando ele acima de todos e não tendo
companheiros, situa-se para lá de todas as raias da amizade, a qual tem
seu alvo na equidade, não aceita a superioridade, antes quer que todos
sejam iguais.
Por isso é que entre os ladrões reina a maior confiança, no dividir do
que roubaram; todos são pares e companheiros e, se não se amam, temem-se
pelo menos uns aos outros e não querem, desunindo-se, tornar-se mais
fracos.
Quanto ao tirano, nem os próprios favoritos podem ter confiança nele,
pois aprenderam por si que ele pode tudo, que não há direitos nem
deveres a que esteja obrigado, a sua única lei é a sua vontade, não é
companheiro de ninguém, antes é senhor de todos. Quão dignos de piedade,
portanto, são aqueles que, perante exemplos tão evidentes, face a um
perigo tão iminente, não aprendem com o que outros já sofreram!
Como pode haver tanta gente que gosta de conviver com os tiranos e que
nem um só tenha inteligência e ousadia que bastem para lhes dizer o que
(no dizer do conto) a raposa respondeu ao leão que se fingia doente: “De
boa mente entraria no teu covil; mas só vejo pegadas de bichos que
entram e nenhuma dos que dele tenham saído”.
Esses desgraçados só vêem o brilho dos tesouros do tirano e ficam
olhando espantados para o fulgor das suas suntuosidades, deslumbrados
com tanto esplendor; aproximam-se e não vêem que estão a atirar-se para
o meio de uma fogueira que não tardará a consumi-los. O Sátiro
indiscreto (reza a fábula), ao ver aceso o lume descoberto por Prometeu,
achou-o tão belo que foi beijá-lo e se queimou.
A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo,
vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo
tem: a de tudo queimar (diz o poeta lucano).
Vamos admitir que os favoritos consigam escapar às mãos daqueles a quem
servem. Não escaparão do rei que vier depois. Se for bom, tudo fará para
pedir contas e repor a justiça. Se for mau e semelhante ao que eles
serviram, há de ter os seus favoritos que, evidentemente, além de
pretenderem ocupar o lugar dos outros, hão de querer também os bens e as
vidas deles.
Assim sendo, como pode haver alguém que, no meio de tantos perigos, de
tanta insegurança, queira ocupar tão desgraçada posição e servir com tal
risco tão perigoso amo?
Que tormento, que martírio este, Deus meu: viver dia e noite a pensar em
ser agradável a alguém e, ao mesmo tempo, temê-lo mais do que a qualquer
homem!
Que tormento estar sempre de olho à espreita, de ouvido a escuta, a
espiar de onde virá o golpe, para descobrir embustes, examinando sempre
as feições dos companheiros, a ver se descobre quem o trai, rindo-se
para todos, receando-os a todos, não tendo inimigo declarado nem amigo
certo!
Que tormento fazer sempre rosto risonho, tendo o coração transido, não
poder mostrar-se contente e não se atrever a ser triste!
Aprazível é considerar o que eles ganham com tanto tormento, o que podem
esperar dos trabalhos que passam e da mísera vida que levam.
O povo gosta de acusar dos males que sofre não o tirano, mas os que o
aconselham: os povos, as nações, toda a gente, incluindo os camponeses e
os lavradores, todos sabem os nomes deles e os respectivos vícios; sobre
eles lançam mil ultrajes, mil vilanias, mil maldições. Todas as suas
orações e votos são contra eles. Todas as desgraças, todas as pestes,
todas as fomes lhes são atribuídas e, se às vezes, exteriormente, lhes
tributam algum respeito, não deixam de amaldiçoá-lo no mais fundo do
coração, têm por eles um horror maior do que têm aos animais ferozes.
Tal é a honra, tal é a glória que recebem em paga dos serviços que
prestam aos povos, os quais nunca se darão por saciados e compensados do
que sofreram, ainda que por eles repartissem o corpo em pedaços.
Mesmo depois de morrerem, os que ficam tudo farão para que o nome de
Come-Gente lhes seja atribuído e manchado pela tinta de mil penas, e a
sua reputação desfeita em milhares de livros, e os próprios ossos, a bem
dizer, pisados pelos vindouros que assim castigam depois de mortos os
que tiveram vida ruim.
Aprendamos com estes exemplos, aprendamos a fazer o bem.
Ergamos os olhos para o Céu, seja por amor da nossa honra, seja pelo
amor da própria virtude, olhemos para Deus Todo-poderoso, testemunha
certa de nossos atos e justo juiz de nossas faltas.
De minha parte, penso, e não me engano, que nada há de mais contrário a
um Deus liberal e bondoso, do que a tirania e que ele reserva aos
tiranos e seus cúmplices um castigo especial.
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