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Benjamin Steinbruch No meio de nossa avassaladora crise política, olhamos para o sul do continente e vemos que a Argentina cresceu 10,5% em 12 meses até maio. Mesmo os críticos do caminho do calote, escolhido pela Argentina, entre os quais me incluo, precisam reconhecer que o crescimento da atividade do país vizinho é sólido. Depois de encolher 20% durante quatro anos de recessão, a economia Argentina cresceu 8,8% em 2003, 9% em 2004 e deve crescer 8,5% neste ano. Em três anos; portanto, já houve uma expansão de 26,3%. Essas observações não são um elogio ao caminho escolhido pela Argentina. Mantenho o que já escrevi neste espaço. A moratória e o calote da dívida pública não podem ser exemplos para nenhum país. Essa estratégia aumentou o desemprego e a pobreza, que já eram graves em 2001, por causa da equivocada política cambial do ministro Domingo Cavallo. Mesmo com essas ressalvas, cito o caso argentino para mostrar quão longe está o Brasil de uma política sadia de crescimento. A comparação do desempenho argentino com o brasileiro nos deixa vermelhos de vergonha. Só nos 12 meses até maio, a Argentina cresceu mais do que o Brasil em três anos - de 2003 a 2005, o PIB brasileiro deve aumentar 9,3%. Isso prova que não tivemos competência para impor uma política séria de desenvolvimento, apesar de todas as condições favoráveis. Faltam 17 meses para o fim do atual governo. Gostaria de estar errado, mas dificilmente Lula conseguirá recolocar a discussão de alguns temas fundamentais da agenda de reformas institucionais. A crise política se aprofundou e provavelmente, não haverá mais espaço para votações importantes no Congresso, como as reformas tributária, sindical e trabalhista.
Diante dessa perspectiva, qual
seria a forma de preservar o parco
crescimento que ainda temos na
economia? A resposta é uma só: Até agora, os efeitos da crise política sobre a economia são mínimos. O mercado financeiro pouco reagiu. As condições externas continuam favoráveis ao país, tanto para a oferta de financiamentos como para as exportações (apesar do câmbio). Mas, em situações de incerteza como a atual existe uma natural refração de investimentos no setor privado. As empresas, que já relutavam em lançar planos de ampliação de capacidade em razão da política suicida de juros do Banco Central tenderão apensar duas vezes antes de iniciar investimentos. Cabe então ao setor público sair da retranca e fazer investimentos importantes nas áreas de sua responsabilidade, principalmente em infra-estrutura, porque isso terá reflexos imediatos na atividade privada e na criação de empregos. Registre-se que essa responsabilidade não cabe apenas ao governo federal. Algumas administrações estaduais e municipais; como as do Estado e do município de São Paulo, fizeram programas de austeridade - acumularam recursos e estão em condições de tocar projetos com mais determinação do que a demonstrada até agora. Os últimos meses do atual governo serão um período de transição, sabe-se lá para onde. O presidente Lula continua com apoio popular, segundo as pesquisas. Mas é difícil prever até onde irá a atual crise e qual impacto terá nas próximas eleições. Na semana passada, além da Argentina, vimos que a China cresceu 9,5% nos últimos 12 meses. Grande parte desse avanço se dá em razão dos investimentos públicos. Só em ferrovias, a China investiu US$ 65 bilhões no ano passado e planeja investir US$ 200 bilhões nos 15 anos a partir de 2005. Não se deve cultivar nenhum complexo de inferioridade. O Brasil tem condições para ser tão eficiente quanto a China ou a Argentina na promoção de desenvolvimento. Por isso, a preocupação atual de todos os que trabalham a favor do Brasil deveria ser a de entregar ao governo a ser eleito em 2006 um país em crescimento. Maior desgraça do que a crise política seria a repetição do quadro econômico em que se deu a transição de 2002, com a economia estagnada, descrédito internacional e ameaça de volta da inflação. O Brasil não merece e não precisa passar por isso novamente. Benjamin Steinbruch, 51, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Folha de SP - 26/07/05 |